Tempo e propósito

 Por Aender Borba

Ansiedade, correria, urgência, um estado de alerta constante e a impressão que não há tempo para fazer tudo que é preciso. Essas, talvez, sejam as maiores lutas que precisamos enfrentar nos dias atuais. Discernir a ocasião certa e fazer uso adequado do tempo, quase sempre negando a possibilidade de que algo fuja ao controle, tornou-se tônica de nossas aspirações mais profundas. O que significa reconhecer que "há um tempo certo para cada propósito na vida"? Como eleger uma opção dentre as muitas do "cardápio cotidiano" sem a sensação de que vou me arrepender de não ter escolhido a melhor de todas... (aquela que me trará satisfação eterna)? O sábio ensina que "há tempo para todo propósito", mas, e quando as vicissitudes nos consomem ao ponto de perdermos o bom senso e a conexão com o desfrute do tempo? E quando tudo perde o valor, porque ao invés de viver o tempo, deseja-se monetizar o tempo; apressar o tempo com a velocidade 2x; ou encher a cara de remédios sem prescrição ou necessidade; ler o livro de 800 páginas em 3 dias ou fazer 50 cursos por mês para saber tudo sobre todos os assuntos que os "especialistas" têm a dizer sobre a algo que me causa uma dor? O fato é que, na tentativa de dominar completamente o tempo, sem a alegria da gratidão diária e sem realizar o bem enquanto vivemos, somos consumidos por ele. Enquanto não considerarmos que somos marcados pela temporalidade enquanto fator constitutivo de nossa condição humana, seremos velozmente devorados pela insatisfação de não conseguirmos realizar algo bom dentro do tempo que nos foi dado. Permaneceremos afogados pela culpa que chamamos de "procrastinação" por não prestarmos atenção e cuidarmos, como bons mordomos, do tempo que nos foi oferecido "hoje". O tempo nos é dado com um propósito: acolhê-lo como dádiva para dele nos deleitarmos responsavelmente! Não para sermos torturados pela ansiedade de não dar conta de tudo que ultrapassa o limite do que o tempo permite realizar e nem para que nossas escolhas nos tornem negligentes dos compromissos que livre e prudentemente assumirmos.

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