Distrações e distorções

 Por Aender Borba

Texto publicado originalmente em https://offlattes.com/archives/8686

A experiência temporal que encerra todos os seres humanos na mesma condição é comumente negligenciada como um fator constitutivo da nossa presença no mundo. É muito comum ouvir as pessoas reclamarem que “não têm tempo suficiente para fazer o que deveriam” ou que “o tempo está passando rápido demais”. Mais recentemente, o impacto das transformações digitais, com sua carga absurda de informações disponíveis nas mídias sociais, tem promovido a sensação de que quem não ouve (porque ler demora muito, então, o mais rápido é ouvir) todos os vlogs e podcasts que os produtores de conteúdo disponibilizaram hoje está desatualizado. O resultado é uma ansiedade generalizada por consumo de conteúdo e, consequentemente, uma angústia existencial gerada pela impossibilidade de corresponder, em tempo hábil, ao que está sendo ofertado: muitas vezes, soluções de péssima qualidade e até fake news. É importante salientar que tempo é um conceito que tem implicações culturais, políticas e ontológicas. Acompanhar as mudanças tecnológicas tem sido um desafio constante, porque a cada nova transformação surgem novas necessidades de se orientar. Como encontrar o sentido em meio a todas essas mudanças?

Thomas Cabill (1999) diz que, na antiguidade, os povos sumérios tinham uma percepção cíclica do tempo; as pessoas se orientavam pelo movimento da lua ou do sol e tempo era o intervalo entre o plantio e a colheita, como se apenas houvesse o presente. De acordo com sua tese, os judeus, ao quebrarem com este ciclo, introduziram na humanidade a “única ideia nova que os humanos já tiveram”, pois, a partir deles, surgiu uma nova maneira de pensar, vivenciar, compreender e sentir o mundo. Diferente dos animais, que estão presos a um contínuo e persistente presente (por isso, os cachorros buscam a bolinha ou o graveto incansavelmente todas as vezes que arremessados), os humanos podem perceber e agir intencionalmente no presente; resgatando memórias, ou imaginando planos futuros. Tudo a seu tempo! Porque tempo é consciência (it is not money) e consciência exige responsabilidade com a própria vida. Como insistentemente afirmava Viktor Frankl (apud OLIVEIRA, 1989, p. 74): “é preciso dizer sim à vida, apesar de tudo!” Para ele, “em última análise, viver não significa outra coisa senão arcar com a responsabilidade de responder adequadamente às perguntas da vida, pelo cumprimento das tarefas colocadas pela vida a cada indivíduo, pelo cumprimento da exigência do momento”. (FRANKL, 2011, p. 102)

Quando pensamos nas implicações de se viver uma vida conscientemente responsável, temos que prestar atenção ao modo como nos posicionamos no tempo e no espaço. A sociedade contemporânea está imersa numa lógica de distração alienante. Reclama-se de que não se tem tempo para nada, mas só se dá conta (toma consciência) do tempo perdido diante de uma tela de celular quando a realidade o convoca a responder ao que era solicitado, quase sempre na última hora. O procrastinador é sempre alguém que facilmente se distrai e que, ao situar-se no tempo, se culpa por aquilo que deixou de responder. Via de regra, o sentimento de autopunição dispara um mecanismo de autoengano e a pessoa passa a se rotular com patologias que, na maioria das vezes, não possui, mas que servem de subterfúgios para sua irresponsabilidade. Valer-se de (auto)diagnósticos para se vitimizar não resolve o problema da culpa nem do que se perdeu.

De algum modo, as principais doenças modernas têm algo em comum: a falta de sentido; uma força paralisante, algumas vezes, alienante. Pense, por exemplo, se, em termos gerais, não poderíamos dizer que a depressão é um tipo de prisão da memória aos eventos passados aos quais a pessoa não soube responder adequadamente quando foi solicitada. Considere se a ansiedade não é uma forma de antecipação exagerada de eventos futuros dos quais não possuímos controle algum. Obviamente, não estamos insinuando que distúrbios psíquicos não possuem causas orgânicas e precisam de tratamento farmacológico. No entanto, podemos afirmar, com certo grau de confiança, que as novas tecnologias de comunicação cumprem a tarefa de distrair as pessoas, sob a alegação de fornecer-lhes respostas para seus desejos mais intensos, seja vendendo a fórmula da felicidade em cinco passos ou fazendo-as se sentirem com as vidas perfeitas. Se Edmund Husserl estava correto ao dizer que “consciência é consciência de”, todas as vezes que nos perdemos em devaneios excessivos, deixamos de perceber o que a vida está demandando de nós. Sem uma vontade de sentido, não é possível encontrar o sentido! Sem uma razão para viver, as forças se esvaem e ficamos completamente inertes e frustrados existencialmente. Creio que uma experiência de Frankl em um dos campos de concentração pelos quais passou pode nos ajudar nessa reflexão:

Um dos prisioneiros contou-me que, ao marchar numa coluna de reclusos recém-chegados, indo da estação ferroviária para o campo de concentração, teve o sentimento de estar andando “atrás do seu próprio cadáver”. Tal a intensidade com que ele experimentou, naquela ocasião, sua absoluta falta de futuro, o qual o obrigou a encarar toda sua vida exclusivamente sob a perspectiva do passado, como algo passado, como de um morto. Essa experiência de ser “cadáver vivo” ainda é aprofundada por outros momentos. Enquanto que na dimensão temporal se faz sentir o caráter limitado da detenção, faz-se sentir na dimensão espacial a limitação, o encarceramento. Aquilo que se encontra do lado de fora do arame farpado, muito cedo, parece inacessível e finalmente irreal, de certo modo. Os acontecimentos lá fora, assim como as pessoas e toda vida normal fora do campo, assumem um aspecto de certa forma fantasmagórico para aquele que está dentro do campo de concentração. Na medida em que essa pessoa puder lançar um olhar para fora, a vida ali será vista por ela como que por um falecido que olha do “além” para este mundo. Em relação ao mundo normal, o recluso, com o tempo, se sentirá como se estivesse “desaparecido para este mundo”. (FRANKL, 1999, p. 95).

Frankl (1999, p. 94) costumava dizer para seus companheiros que “no campo de concentração, um dia demora mais que uma semana”, num ambiente permeado de incertezas e violências a todo momento, a vivência temporal exigia muita atenção a tudo que os cercava. Hoje, o que nos faz ter uma sensação semelhante de desconexão com o tempo é a falta de atenção aos enfrentamentos que a vida vai apresentando e aos quais devemos responder. Distraídos pela larga oferta de realização pessoal sem esforço e dedicação, vamos nos afastando de nossas reponsabilidades e nos distanciando do sentido, que devemos descobrir para nos orientar no tempo e no espaço.

Em minhas escutas clínicas, percebo como as pessoas são capturadas pelas distrações. Um exemplo que ilustra esse fato seria o de um adolescente que ouviu as propostas revolucionárias do professor do ensino médio e se sentiu representado por elas, mas não tinha um repertório crítico para avaliar e discernir que aquele talvez não fosse o sentido que devesse seguir, mas o de outra pessoa. Esse é o mesmo adolescente que quer sair de casa, estudar na faculdade particular mais cara da cidade, frequentar as baladas VIP todos os finais de semana e entregar a fatura para o pai, que tem rendimentos entre 3 e 5 salários mínimos.

Como dissemos anteriormente, o tempo tem implicações culturais, políticas e ontológicas. Nosso campo de batalha está minado com excesso de informações, que nada mais são do que distrações que distorcem a realidade e oferecem caminhos que não são propriamente nossos, mas de outros, mercado ou do Estado. Enquanto não se percebe qual é a motivação primária da vida, aquilo pelo qual “somos capazes de viver e até de morrer”, e deixamos de nos mover em direção a isso, só resta a vitimização e a frustração existencial de não termos realizado algo de concreto – o resultado é transferir a responsabilidade para alguém que possa “pagar a fatura por nós”. Cedo ou tarde, todos terão que se defrontar com a transitoriedade da vida, aquela ocasião em que se descobre que não se vive para sempre; a finitude bateu à porta e veio cobrar de você a fatura por não ter se responsabilizado pela própria existência! 

Referências

CAHILL, T. A dádiva dos judeus: como uma tribo do deserto moldou nosso modo de pensar. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 1999.

FRANKl, E. V. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. 25 ed. São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis; Petrópolis: Vozes, 2008.

OLIVEIRA, M. L. G. Edith Stein e o sentido da vida. Rio de Janeiro: Presença Edições, 1989.

Imagem: Harold Lloyd em “O homem mosca” (1923)

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