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Mostrando postagens de Abril, 2021

Distrações e distorções

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 Por Aender Borba Texto publicado originalmente em  https://offlattes.com/archives/8686 A experiência temporal que encerra todos os seres humanos na mesma condição é comumente negligenciada como um fator constitutivo da nossa presença no mundo. É muito comum ouvir as pessoas reclamarem que “não têm tempo suficiente para fazer o que deveriam” ou que “o tempo está passando rápido demais”. Mais recentemente, o impacto das transformações digitais, com sua carga absurda de informações disponíveis nas mídias sociais, tem promovido a sensação de que quem não ouve (porque ler demora muito, então, o mais rápido é ouvir) todos os  vlogs  e  podcasts  que os produtores de conteúdo disponibilizaram  hoje  está desatualizado. O resultado é uma ansiedade generalizada por consumo de conteúdo e, consequentemente, uma angústia existencial gerada pela impossibilidade de corresponder, em tempo hábil, ao que está sendo ofertado: muitas vezes, soluções de péssima qualidade e até  fake news . É importante s

Sinta raiva, mas não peque

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 Por Aender Borba Para alguns psicólogos e neurocientistas a raiva é uma emoção básica, que pode ser definida como uma pretensão de causar dano e hostilizar alguém. A raiva é um tipo de reação que normalmente é percebida como um gradiente, que vai de uma posição normal até um ponto extremo (...raiva, ira, ódio, cólera...). Em termos comportamentais, o que se percebe e se torna passível de descrição é a manifestação do instinto de agressividade. Certamente, uma pequena dose de ira nos ajuda com o senso de autorrespeito e nos torna capazes de sustentar alguma dignidade. Eu prefiro chamar de "impeto", ou "brio", porque uma traço característico de toda pessoa irada é que ela se sente plenamente justificada no ato violento que comete, mesmo quando não. Quem sente raiva, sente que está correto nos motivos que o levaram a isso. É difícil fugir da ira porque a sua justificativa moral me afasta do estado em que estou. Neste sentido, ela passa ser uma justiça desmedida. A ira

O amor conjugal

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 Por Aender Borba Lendo "O mar me contou" de Cláudio García Pintos, deparei-me com esse lindo capítulo sobre o amor conjugal.  A sintese que ele apresenta é sensacional, mas as explicações me chamaram ainda mais atenção para algo absolutamente necessário para se apreender esse amor: ele só acontece numa relação sujeito-sujeito (EU-TU). Fomos treinados a admitir como a verdade expressões como: "metade da laranja", "você me completa", "ela tem o que falta em mim", etc ... mas há um problema aqui.  O amor não é um analgésico para minhas insuficiências ou carências, pois o somatório de insuficiências resulta em mais insuficiência e não em complementação.  Duas pessoas completas, quando se amam, não perdem sua integridade e sua identidade, pelo contrário, quanto mais inteiras, mais capazes serão de se doar um para o outro.  Como cordas de um violão, que devem ter sua própria tensão, afinação e seu lugar próprio e soarem harmonicamente.   

Enfrentamentos diários da vida ordinária

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O problema real da vida cristã aparece onde as pessoas normalmente não procuram.  Ele aparece instantaneamente em que você acorda cada manhã.  Todos os desejos e esperanças para o dia correm para você como animais selvagens.  E a primeira tarefa de cada manhã consiste simplesmente em empurra-los todos para traz;  em dar ouvidos a outra voz, tomando aquele outro ponto de vista, deixando aquela outra vida mais ampla, mais forte e mais calma entrar como uma brisa.  E assim por diante, todos os dias.  Mantendo distância de todas as inquietações e de todos os aborrecimentos naturais, protegendo-se do vento. No começo, somos capazes de faze-lo somente por alguns momentos.  Mas então o novo tipo de vida estará se propagando por todo o nosso ser, porque então estamos deixando Cristo trabalhar em nós no lugar certo.  Trata-se da diferença entre a tinta, que está simplesmente colocado sobre a superfície, e uma mancha que penetra naquela superfície. Quando Cristo disse “sede perfeitos”, quis dize

Tristeza quando abraça o sentido encontra a fé

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 Por Aender Borba “A tristeza é minha companheira constante.  Não importa o que eu faça, a tristeza coloca um peso de chumbo sobre minha alma.  Onde estão os meus ideais, toda a grandeza, a beleza, toda a bondade, tão estimados outrora pelo meu anseio?  Meu coração se acha dominado por um tédio bocejante.  Vivo como que jogada a um vazio.  Existem momentos nos quais até a própria dor me é recusada.  Em meu tormento, clamo por Deus, o Pai de todos.  Mas Ele também silencia.  No fundo, só desejaria uma coisa: morrer;  morrer hoje mesmo, se isso me for possível.  Se eu não tiver a consciência dada a mim pela fé, segundo a qual não sou dona de minha vida, já, e muitas vezes, teria me entregado ao vazio. Nesta fé, começa a transformar-se toda a amargura do sofrimento.  Porque aquele que pensa que a vida humana tem de ser um caminhar de êxito, assemelha-se um tolo que meneia um dianteiro de uma construção e se admira que está cavando um abismo onde se deve erguer uma catedral.  Deus edifica

O que nos guia é a pergunta

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 Por Aender Borba Todo mundo passa por uma fase de indecisão quanto a uma escolha profissional, no caso dos psicólogos, habilidades como: “ser bom ouvinte”, “empático” e “interesse em ajudar as pessoas” ..., na maioria das vezes foram determinantes para a decisão final quanto ao caminho a seguir. A dúvida ao escolher uma profissão é cruel, porque parece algo irreversível e tem que ser definitiva.  Poucas pessoas se dão conta de que o que nos movemos não são como características individuais, mas uma “pergunta”.  Pergunta que precisa ser sustentada enquanto critério que fundamenta a busca pela realização do sentido para onde ela aponta.  Infelizmente, em muitos casos, vai escoando no decorrer do percurso, chegando a ser esquecida e até abandonada.  Deixe-me ilustrar ... O aluno entra na faculdade achando que rompeu a pior de todas as barreiras.  Mal sabe que encarar 5 anos de graduação, baixas de horas de atividades complementares e dezenas de estágios não é nem o princípio das dores. O