Seriedade e sentido

Por Aender Borba
Chegando ao fim de uma semana que me marcou profundamente, lembrei-me de um livro que li há alguns anos, de um judeu que narra suas experiências nos Campos de Extermínio Nazistas. Voltei ao texto para tentar pensar na urgência de se falar sobre sofrimento humano e o limite de existir.


Uma sucessão de eventos e conversas me conduziram por diversas reflexões, as quais menciono em sequência:
Na segunda-feira, dia 07/10/19, por volta das 6 horas da manhã, dois gritos de “socorro” penetraram nossa janela de forma avassaladora. Não conseguindo detectar exatamente o que acontecera naquele instante, minutos depois, soubemos que um garoto de 13 anos havia se atirado do 13º andar de um dos prédios do condomínio em frente ao nosso. O fato tornou-se público e trouxe consigo um sentimento de impotência e desamparo em toda cidade, o que facilmente se percebia nos comentários em grupos de whatsapp e outras mídias. O ponto comum: cada um queria dar sua explicação.
Na terça e na quarta, algumas das pessoas que recebo no consultório tocaram e temas bem delicados que remetiam a sentimentos de aprisionamento e desejo de morte.
Quarta, recebo uma mensagem de uma mãe desesperada que leu um de meus textos que escrevi para o blog Voltemos ao Evangelho, sobre filhos adolescentes. Na mensagem, ela descreveu uma situação com o filho, de 15 anos, que lhe retirou o chão completamente. No final da mensagem, um pedido de “socorro”. Não conhecia aquela mulher, mas o grito ecoou dentro de mim. Ao final de algumas mensagens, ela se disse mais aliviada e agradecida.
Quinta-feira, outra mensagem, agora de um querido amigo cujo filho havia intentado contra a própria vida ingerindo uma quantidade grande de medicamentos. A distância não permitiu ir até eles, por isso, orações e algumas palavras de consolo foram o que pude oferecer naquele momento.
Sexta, troca de mensagens com alunos do Seminário Martin Bucer, que estão enfrentando sérias dificuldades com depressão e ansiedade me deixaram pensativo, por isso o texto do Primo Levi me veio… numa bisca por compreensão desses sofrimentos, mas também como alívio confortante e descanso em Deus. Escreve Levi:
Bem sabemos que amanhã será como hoje; talvez chova um pouco mais ou um pouco menos; talvez, em lugar de cavar o chão, iremos ao Carbureto para descarregar tijolos. Ou talvez amanhã termine a guerra, ou talvez sejamos todos mortos, ou transferidos para outro Campo, ou aconteça uma dessas reviravoltas que, desde que existe o Campo, são cada vez profetizadas como iminentes e certas. Mas quem é que pode, seriamente, pensar no dia de amanhã? A memória é um instrumento estranho: durante o tempo passado no Campo, dançaram na minha cabeça dois versos que um amigo meu escreveu, há muito tempo atrás:
infin che um giorno
senso non avrà più dire: domani”. [1]
Aqui é assim. Sabem como é que a gente diz “nunca”, na gíria do Campo? Morgen früh: amanhã de manhã. (LEVI, 1998, p.153). [2]
O que mais me chama a atenção na narrativa do Primo Levi é a crueza com que ele expõe a realidade vivida durante o tempo em que esteve preso. Tratado como um não-ser, ele mostra como a perversão humana pode chegar ao ápice na desumanização, quando alguém se torna incapaz de perceber a dignidade na face do outro. Que dizer daqueles que perderam essa noção de si mesmos? Que pressão terrível é essa, que leva um ser humano ao limite da existência? Que sofrimento é este que faz emergir a pergunta que ressoa do verso que Levi resgata: “quem pode, seriamente, pensar no dia de amanhã se ele não tem sentido algum?”
Seriedade e sentido, dois conceitos cada vez mais desgastados em nosso tempo. Possivelmente, como diagnosticado pelo exército norte-americanos ao final da Guerra Fria, o mundo esteja mesmo intoxicado pela volatilidadeincertezacomplexidade e ambiguidade (VUCA, em inglês). É possível se apropriar desses conceitos ao nível de uma “carreira de sucesso”. O mundo está cada vez mais exigente e acelerado, entretanto, talvez seja por isso que o amanhã não faça sentido: uma vez que ele já está requerendo respostas hoje. É como se não existisse. Quem sabe isso ajude a pensar na ansiedade que marca essa geração? Completamente na contramão do que adverte Jesus: “Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal”. (Mateus 6:34).
É bom lembrar que sucesso é um subproduto de quando se faz algo com amor, e que não há propósito sem sentido. É preciso levar a vida a sério e isso começa com o cuidado da pessoa humana nos níveis de relacionamento mais fundamentais para cada um de nós.
Pais, precisam olhar para seus filhos como pessoas e não como máquinas de resultados devido ao investimento financeiro que estão fazendo até eles saírem da faculdade. Filhos, vejam seus pais como amigos cuidadores e não como um caixa eletrônico permanente de onde você saca sua grana para bancar seus caprichos egoístas. Lembrem-se da experiência de desumanização dos Campos de Extermínio, guardadas as proporções, a lógica é a mesma.
Que cada dia seja vivido na perspectiva da eternidade e não pelo viés da obsolescência fluida, cada vez mais ágil e cruel de nossos dias!
Na esperança de dias menos angustiantes para todos…

[1] tradução: “Até que um dia, dizer amanhã, não terá sentido algum.”
[2] LEVI, Primo. É isto um homem? Rio de Janeiro: Rocco, 1988.

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