Páscoa Cristã ou Festa Judaica?

Por Aender Borba

Sou cristão evangélico há mais de três décadas e, em todos esses anos, não me lembro de ter passado um ano sequer sem ouvir algum tipo de controvérsia sobre datas e tradições cristãs. Sempre que um evento importante se aproxima, traz consigo adeptos e adversários. Minha desconfiança é que as celebrações do calendário judaico-cristão despertam um forte senso universal de conexão com o tempo; uns respondem e outros tentam negligenciar.
Um dos aspectos mais importante da Páscoa é a sua historicidade e a sua persistência no tempo, cerca de 3000 anos. É muito estranho afirmar que esta é uma festa restritamente judaica. O povo judeu, como nação, nem existia na época em que ela foi instituída, cerca de 1250 a.C. Neste aspecto, a festa é hebraica, porém, seria mais correto considerá-la bíblica. Argumento mais que suficiente para que todo cristão a celebre com muita alegria, pois, nela o Senhor deu seu primeiro e mais poderoso sinal [no tempo] de que exterminaria todos os falsos deuses. Veja o que diz Êxodo 12:11–14,
E vós o comereis assim: com vossos cintos na cintura, vossos sapatos nos pés e vosso cajado na mão; e o comereis às pressas. Esta é a Páscoa do SENHOR. Porque naquela noite passarei pela terra do Egito e ferirei de morte todos os primogênitos na terra do Egito, tanto dos homens como dos animais; e executarei juízo sobre todos os deuses do Egito. Eu sou o SENHOR. Mas o sangue servirá de sinal nas casas em que estiverdes. Se eu vir o sangue, passarei adiante, e não haverá praga entre vós para vos destruir, quando eu ferir a terra do Egito. E este dia será um memorial. Vós o celebrareis como uma festa ao SENHOR e como estatuto perpétuo através de todas as vossas gerações.
A Páscoa é um sinal de que o braço do Senhor está trabalhando [em seu filho Jesus] para constituir o seu povo [a igreja], por isso deve ser lembrada, pois, se naquele dia houve julgamento, também houve redenção. Este é o aspecto mais importante desta celebração, porém, se olharmos para este evento como um ato isolado de Deus na história, além de perdermos seu significado, perderemos seu cumprimento pleno na pessoa de Jesus Cristo, a quem o apóstolo Paulo chama de “nossa Páscoa” (Coríntios 5:7). Assim como o povo hebreu foi liberto da escravidão do Egito, recebemos por graça a redenção dos nossos pecados, exclusivamente através de Cristo, nosso Cordeiro Pascal.
Eis aí um grande mistério, que apenas um cristão iluminado pelo Espírito Santo pode perceber. Um judeu quando celebra a Festa, não tem a revelação do que Deus realizou em seu filho. Chamar a cerimônia pelo mesmo nome, não significa que cristãos estejam celebrando a mesma coisa que os judeus. Para estes ela é apenas um ato miraculoso em favor de seus antepassados, para aqueles, plena salvação em Cristo Jesus!
Eventos importantes na história bíblica mostram que a festa da Páscoa não era apenas um rito cerimonial desprovido de significado, mas um reconhecimento daquilo que Deus estava realizando em favor do seu povo, pela sua Palavra.
Em 2Crônicas 30, o rei Ezequias, ao reestabelecer o culto ao Senhor, faz a santa convocação da Páscoa. O retorno à Palavra alegrou tanto o povo, que a comunidade decidiu estender a festa por mais sete dias, e vale lembrar que estavam fora da data usual [décimo quarto dia do primeiro mês*]. Evento semelhante acontece com o rei Josias (2 Crônicas 35). Naqueles dias, o sacerdote Hilquias havia achado o Livro da Lei (2 Crônicas 34:14). O reencontro com a Palavra fez com que o povo se voltasse para Deus, se arrependesse de seus pecados. Notavelmente, em ambos os episódios, a idolatria havia sido retirada do meio do povo. Também em Esdras 6:19–22, vemos que, após a conclusão e consagração do tempo, o povo celebra a Páscoa como um sinal de alegria por Deus ter mudado o coração do rei da Assíria em favor deles. Perceba que em cada evento importante de retorno à Palavra de Deus, a festa é celebrada como uma reedição daquilo que Deus fez por seu povo no Egito.
Infelizmente, cristãos deixaram de celebrar a Páscoa, porque perderam a noção de que Deus se revela na história. Na Bíblia, as festas não eram apenas eventos do calendário étnico cultural, mas uma expressão de reconhecimento e gratidão pela providência divina; quando ele vem a nós. Neste aspecto, nada muda para nós, hoje. Assim como os judeus, cristãos também deveriam se reunir numa celebração didática para recontar aos seus filhos como Deus livrou com mãos fortes o seu povo da opressão de Faraó.
Tem sido assim com nossa filha desde que ela está conosco. Hoje, aos 10 anos, ela entende “por que essa noite é diferente de todas as outras”. Começamos olhando para o céu e admirando a lua, que está cheia no dia e prosseguimos até a refeição que comemos juntos, contanto como Jesus aparece em cada elemento que é colocado sobre a mesa. Este dia é tão esperado por nossa família, quanto aquele em que veremos o Senhor face a face. É assim que vencemos a guerra contra os ovos de chocolate, substituindo o paganismo sem sentido por um encontro familiar especial regado pela Palavra.
Por fim e mais importante, lemos em Lucas 22 que Jesus, horas antes de sua morte, ansiava comer aquela última Páscoa com seus discípulos. Fico pensando na reação dos discípulos ao ouvir o mestre se identificando com cada um daqueles elementos que estavam sobre a mesa! Dois deles, pão e vinho, tornaram-se para nós não apenas símbolos, mas sinais pactuais de que pertencemos à comunidade eleita, lavada e remida no sacrifício do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo; anúncios fervorosos e esperançosos de sua morte e ressurreição, até que ele venha (1Coríntios 11:26).
Sigamos, a recomendação do apóstolo Paulo, “portanto, celebremos a festa, não com fermento velho, nem com fermento da maldade e da corrupção, mas com os pães sem fermento da sinceridade e da verdade”. (Coríntios 5:8).
Hag Pessach Sameach! Feliz Festa de Páscoa!
*O primeiro mês do calendário hebraico é Nissan (março/abril), também mencionado na Bíblia como mês de Aviv. Ele corresponde ao sétimo mês do ano civil.

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