Lippy leva Hardy ao consultório

Por Aender Borba

Na minha infância, lembro-me que havia uma série de desenhos animados produzidos por Hanna-Barbera. Um dos meus preferidos era "Lippy e Hardy" (em inglês, Lippy the Lion & Hardy Har Har). Uma dupla cuja característica marcante era o pessimismo da hiena, Hardy. Naquela época, eu não fazia a menor noção de que tal comportamento era uma forma de expressar um traço de personalidade presente em muitas pessoas, mas já era capaz de perceber. Tanto é que, as expressões "Oh, dia; Oh, céus; Oh, azar" ou "Eu sei que não vai dar certo..."  surgiam como piadas ou brincadeiras entre os amigos. 

Hoje, um pouco mais distante daquela imaturidade pueril, não seria irresponsável descrever a postura de Hardy diante da vida como um tipo de arquétipo, ou seja, um modelo, ou padrão que pode ser observado em larga escala como paradigma compartilhado por muitos indivíduos. 

À época (meados de 80, início de 90), o cenário econômico brasileiro oferecia motivos de sobra para as pessoas ficarem desiludidas e, em algum sentido, sem esperança. Para se ter uma ideia, a inflação acumulada de 1990 foi de 1.782,90%; Fernando Collor de Melo bloqueou as cadernetas de poupança e conta correntes por 18 meses, com promessas descumpridas, obviamente; indústria e comércio estagnados, problemas sociais em índices alarmantes (pouca coisa mudou...). Diante de um cenário como esses, o pessimismo poderia até refletir um retrato adequado diante daquela realidade. 

Em termos sociais, pode-se dizer que o brasileiro avançou muito pouco. Os problemas perpetuaram sem quase nenhuma mudança significativa. A economia desenvolveu modestamente, mas trouxe à reboque um nível alarmante e quase incontrolável de corrupção. Mas o que mudou em termos de postura individual? 

Do ponto de vista das idiossincrasias contemporâneas, o paradigma "Hardy" retoma a cena com outras expressões. O pessimismo, que tinha como justificativa aspectos externos (sócio-político-econômicos) transferiu seu centro de gravidade para o mundo interior (afetos). Para exemplificar, basta perceber o gosto que as pessoas têm por um diagnóstico retirado da internet, ou uma ou duas consultas com um "guru-pós-moderno". Quase sem variantes, essas pessoas recebem um rótulo que paralisa toda sua vida, roubando-lhe todas as capacidades de assumir a responsabilidade pela própria vida. Obviamente, não penso que o diagnóstico (por isso chamo de rótulo) não seja importante, mas a questão, a meu ver, deveria ser: para quem é importante? Para o paciente ou para o terapeuta? Ele serve ao olhar cuidadoso de quem trata, ou às justificativas que o sujeito quer dar para não assumir compromissos e responsabilidades? Justificativas essas que vão desde uma falta no emprego, simplesmente porque o dia amanheceu nublado, a um laudo no penúltimo dia de aula para o aluno não perder o ano (na maioria das vezes, ele não leu uma linha do conteúdo anual), pois os pais acham que a frustração pela irresponsabilidade vai traumatizar o menino.

Meu ponto aqui não é a crítica pela crítica, nem pretendo fazer uma generalização. Eu, como poucas pessoas, reconheço a seriedade de mutos profissionais que lidam com saúde mental em psicologia e psiquiatria. Entretanto, não posso me calar diante do fato inegável que a experiência profissional e as "leituras" (em nível de observação e acadêmico) que tenho feito do momento cultural em que estamos, sinalizam. Sou capaz de arriscar uma afirmação nada politicamente correta, certamente na contra-mão do status quo em que caminha a psicologia e a medicina, em nossos dias: 

           o maior responsável pela condição de vitimização das pessoas atualmente é o saber que só descreve sintomas e não oferece as respostas para o enfrentamento do problema.

O campo afetivo, como tem sido nomeado por diversos intelectuais contemporâneos, tornou-se um poder que abate e ao mesmo tempo produz um sofisma de elevação do ego. Ele constrói um tipo de sujeito fragilizado pelo diagnóstico (irresponsável) sem fornecer instrumentos capazes de produzir pessoas resilientes; comprometidas com a própria vida; responsáveis por si, pelos outros e pelo mundo; capazes de conviver com algum nível de sofrimento e dor, quase sempre inevitáveis. 

Lamentavelmente, esta é uma observação com a qual tenho me deparado em diversos contextos na clínica psicológica. O problema é endêmico e afeta filhos indisciplinados, pais que terceirizam o cuidado e educação dos filhos, escolas que não sabem lidar com problemas de comportamento e aprendizagem, homens que não sabem tomar decisões e fogem de seus compromissos, casais que não sabem que o amor tem muitas fases e faces, alunos que querem ser aprovados sem esforço e dedicação, funcionários que não honram suas tarefas porque se consideram supra ou subdimensionada sua função... e a lista poderia ser infinita. 

Penso que o campo afetivo é próprio da constituição humana. Não é algo à parte de nós; não é o antagonista da razão, mas seu componente; não é o regente do pensamento, mas o seu árbitro. Por enquanto, estes são os caminhos de reflexão que tenho trilhado. Espero que este texto encontre ressonância para que o debate possa ser ampliado.