Lobos em pele de ovelha

Por Aender Borba
Antes de mais nada, preciso dizer que este texto foi escrito em tom de "lamento", no sentido mais profundo que este termo evoca: aquele lugar de desconsolo e incerteza, que só a dádiva da fé é capaz de suportar evitando a tentação de se inclinar ao desespero, ao medo e à descrença.
"Por que estás abatida, ó minha alma? 
Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu. Sinto abatida dentro de mim a minha alma…" (Sl 42)
Durante todos os anos desde minha conversão — já se vão mais de 35 anos — sempre estive envolvido em algum nível com o trabalho missionário, em áreas urbanas e até em viagens transculturais. Nos últimos anos, tenho acompanhado mais de perto alguns missionários, cuidado de sua saúde emocional; amigos altamente comprometidos com a missão de Deus, que sabem bem o que significa "carregar as marcas de Cristo" em seus próprios corpos. Com certa frequência, chegam até mim pessoas que se dizem vocacionadas, mas que infelizmente percebem na atividade missionária apenas uma janela de oportunidade para sair do país, viajar, conhecer o mundo; não raramente para se ver livre de uma situação de contexto familiar desestruturado. Embora não haja nada errado com nenhuma dessas coisas em si mesmas, o que percebo é que o despreparo teológico e emocional tornam a missão uma mera fuga da realidade, o que por si é uma contradição quanto ao que se espera de uma ação evangelística/humanitária/etc num contexto cultural diferente do que se está acostumado. Realidade é o chão que se espera pisar quando se sai do conforto do próprio lar para encontrar com outros seres humanos que carecem de Cristo, a verdade total sobre a realidade!
Minha intenção não é fazer um julgamento sobre as capacidades intelectuais ou emocionais daqueles que pretendem se envolver com a obra missionária, mas quero conclamar as agências missionárias, pastores, lideranças eclesiásticas, juntas missionárias, seminários teológicos, que avaliem seus vocacionados e os submetam ao preparo integral necessário àquele que é enviado para responder à Grande Comissão, seja em "Samaria ou nos Confins da Terra".
Você deve estar se perguntando onde está o tom de lamento deste texto?
No ano de 2014, tive a oportunidade de conhecer São Tomé e Príncipe (África) junto com uma equipe altamente qualificada em diversas frentes de trabalho. Na ocasião, eu estava envolvido com atividades educacionais junto às crianças africanas de uma creche hospedada na base da JOCUM daquela nação. Foram 20 dias de trabalho intenso, de observações antropológicas, palestras, workshops e visitas em regiões de extrema pobreza. No retorno ao Brasil, escrevi minhas impressões sobre aquele país (leia mais aqui). Para minha surpresa, o que deveria ser apenas um breve artigo despretensiosamente escrito, tornou-se um instrumento de denuncia e transformação da realidade naquele país. Sinceramente, espero que este texto seja mais um alerta ao grave problema que descreverei agora.
Recentemente, recebi um jovem africano para um aconselhamento. Ele veio para o Brasil de forma legal e tem investido em sua formação acadêmica com o objetivo de voltar ao seu país para servir seus compatriotas com os conhecimentos adquiridos aqui. Ouvindo aquele rapaz, percebi muito medo de colocar em palavras o que tanto o atormentava. Para meu espanto, lá estava eu novamente confrontado com um caso de abuso sexual; infringido aquele rapaz por um dito "missionário brasileiro" em terras africanas. Não somente ele, mas outras crianças e adolescentes ainda em poder deste sujeito. cujas provas (áudios e mensagens de celular) são incontestes. Só Deus sabe o que aquela conversa suscitou em mim! Fui imediatamente remetido à vulnerabilidade que vi no rosto de cada uma daquelas crianças que encontrei em São Tomé. Sofrimento indescritível, privações materiais, culturas, espirituais, e ainda tendo que lidar com tipo de "LOBO" travestido de ovelha; um verdadeiro predador.
Reservo-me ao direito de não dar detalhes sobre o caso para preservar a integridade deste rapaz e de seus amigos, até porque um processo está em andamento na expectativa de que as devidas providências sejam tomadas quanto ao sujeito em questão. Minha esperança é que os brasileiros que decidem investir em missões (agências, igrejas ou qualquer outra inciativa) se atentem à recomendação de Paulo a Timóteo:
"Se alguém ensina falsas doutrinas e não concorda com a sã doutrina de nosso Senhor Jesus Cristo e com o ensino que é segundo a piedade, é orgulhoso e nada entende. Esse tal mostra um interesse doentio por controvérsias e contendas acerca de palavras, que resultam em inveja, brigas, difamações, suspeitas malignas e atritos constantes entre pessoas que têm a mente corrompida e que são privados da verdade, os quais pensam que a piedade é fonte de lucro." I Tm 6:3–5
É quase inacreditável, mas este tipo de gente existe. Pessoas que, por falta de ortodoxia, fazem da piedade uma fonte de lucro, sem nenhum contentamento. A regra para eles é apresentar fotos de pessoas vulneráveis para financiar sua perversão e autorrealização, às custas de um sofrimento que é elevado à infinita potência (nos vulneráveis) e do investimento de gente com o mais profundo senso de compaixão (os financiadores).
No imaginário das pessoas (do que doa e do beneficiário da oferta), sobretudo dos mais vulneráveis, o missionário é uma espécie de representante de Deus (o que não deixa de ser verdade em algum sentido). Mas o que significa um missionário pedófilo, abusador, aliciador de crianças e adolescente? Que mensagem e que formação educativa este tipo de gente está transmitindo em nome de Deus? Qual o tamanho do estrago e vergonha este tipo de sujeito traz a estas pessoas e ao Evangelho? É preciso dizer "NÃO" para este tipo de situação!
Igreja, atente-se para o mal que está sendo causado por causa da negligência na capacitação (teológica, emocional e espiritual) na hora de escolher e enviar seus missionários. Os campos estão brancos, mas não adianta recrutar "padeiros" para o serviço de um "agricultor". Campo missionário é o chão até onde se estende os domínios do Reino de Deus; só pode trabalhar nele quem é súdito, quem é servo. Os vulneráveis não precisam de BESTAS FERAS que os devorem vivos, pois já as tem em medida suficiente, eles precisam do BOM PASTOR, que dá a vida pelas suas ovelhas.
Obviamente, não há neste texto nenhum tipo de generalização, pois como inciei dizendo, tenho tido boas oportunidade de cooperar de perto para o bem estar emocional, teológico e espiritual de gente comprometida com o Evangelho de Jesus na mesma proporção que com os perdidos e vulneráveis. Pessoas da mais alta qualidade moral e intelectual, estes que têm o privilégio de enfileirar as trincheiras da Grande Comissão com todos os seus dons e habilidades para tornar o mundo mais belo, refletindo a glória de Deus por onde passam.
"Ouve o meu clamor, ó Deus; atenta para a minha oração.
Desde os confins da terra eu clamo a ti, com o coração abatido; põe-me à salvo na rocha mais alta do que eu. Pois tu tens sido o meu refúgio, uma torre forte contra o inimigo." (Sl 61)
P.S. O texto intencionalmente suprime o nome e a localidade onde o fato ocorreu para preservar a identidade do jovem. No entanto, antes da publicação, ele foi consultado e aprovou a denúncia que está sendo feita.