Temporalidade, esperança e gratidão

Por Aender Borba

Existe um fato que sempre chamou minha atenção sobre finais de ano. Sempre ouvi pessoas dizerem que não gostam dessa época de festividades e as justificativas são as mais variadas possíveis. Há quem diga que não gosta por causa do consumismo exagerado e irresponsável; outros odeiam por causa do desperdício das "comelanças" durante os almoços e ceias; já ouvi alguns dizerem que não suportam as "caras de paisagem" que precisam fazer nas reuniões de família e até aqueles que relatam não tolerar a alegria alheia. Vale ressaltar que, não obstante os motivos declarados para repudiar as comemorações sejam plausíveis, minha desconfiança é que essas pessoas estão desatentas à temporalidade, que provoca e convida a uma (auto)reflexão inevitável. 

Nossa cultura ocidental, sob influência grega, tende a observar o tempo de forma cíclica. Uma espécie de roda giratória, sem começo e nem fim, cujos eventos se repetem sem nenhuma finalidade, tratando-se meramente de breves ciclos de eventos sucessivos, que vem e vão sem nenhum propósito. Influenciados por este tipo de pensamento, é possível que os que rejeitam essa época do ano não estejam simplesmente subvertendo o movimento das massas, antes porém, estão se furtando ao chamado inevitável de responder à provocação que o próprio tempo nos faz. Como nos lembra o sábio: "Tudo tem seu tempo determinado e há tempo para todo propósito debaixo do céu." (Eclesiastes 3) 

Ao contrário dos gregos, a mentalidade judaico-cristã conta o tempo de forma linear. Nessa tradição, a história é uma reta cujos acontecimentos se dão de forma progressiva, possuem um sentido e conduzem a um destino perfeitamente orientado para uma finalidade (télos). Todos os eventos da vida são harmonizados com a existência e isso faz com que os bons momentos não sejam fins em si mesmo, mas partes de um continuum de experiências que convocam a refletir no que foi feito, a planejar o que virá pela frente e a encorajar ao enfrentamento do que o futuro reserva.

Penso, sinceramente, que períodos de fechamento, como o fim de ano, são ocasiões para que possamos 
parar, nem que seja para um breve descanso das atividades rotineiras; 
avaliar as conquistas e os fracassos; 
agradecer pela vida, que simplesmente dá as oportunidades (ganhas e perdidas);  
planejar o que se quer manter, o que se deve melhorar ou modificar.

Se minha tese estiver correta, o desgaste de alguns com essa época é resultado de uma desconexão entre a temporalidade e a esperança. Prestar atenção à singularidade e continuidade do tempo é uma forma de não ser devorado pelo tecnicismo contemporâneo. Como diz o rabino Abraham Joshua Heschel  

"A civilização técnica é a conquista do espaço pelo homem. É um triunfo freqüentemente alcançado pelo sacrifício de um ingrediente essencial da existência, isto é, o tempo. Na civilização técnica nós gastamos tempo para ganhar espaço. Intensificar nosso poder no mundo do espaço termina abruptamente na fronteira do tempo. Mas o tempo é o coração da existência." (O Shabat)

O tempo é sagrado e a existência deve ser regida por uma postura de espera, que ao ser alcançado por uma bela surpresa produz gratidão indescritível. Exatamente como aquela criança que recebe o presente que tanto almejava. É conexão com o tempo que faz com que a expectativa pela dádiva se torne viva e real. Quando o presente chega, a espera se transforma em encontro com o objeto desejado.

Para mim, o final de ano é um ocasião para termos a esperança renovada. Mais do que criarmos expectativas vazias sobre o futuro, ou renovarmos as litas de planejamento anual, temos que manter firme a confiança no fato objetivo de que Deus já nos deu seu Filho como o mais precioso de todos os presentes. Nele temos um futuro e um destino. Continuamos aguardando sermos surpreendidos por sua vinda gloriosa, que nos levará ao lar. 

Que Deus abençoe a todos com um ano novo bom e doce!