Ensaio sobre fobias e a resposta cristã.

De forma geral, costumamos dizer que o medo é a resposta emocional a ameaça iminente real ou percebida, enquanto ansiedade é a antecipação de uma ameaça futura. Manuais de psicodiagnóstico mostram que os ataques de pânico se destacam dentro dos transtornos de ansiedade como um tipo particular de resposta ao medo. Muitos dos transtornos de ansiedade se desenvolvem na infância e tendem a persistir se não forem tratados. A maioria ocorre com mais frequência em indivíduos do sexo feminino, numa proporção de aproximadamente 2:1, em relação ao sexo masculino.

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais - DSM-5 diz que transtornos mentais são definidos em relação a normas e valores culturais, sociais e familiares. A cultura proporciona estruturas de interpretação que moldam a experiência e a expressão de sintomas, sinais e comportamentos que são os critérios para o diagnóstico. A cultura é transmitida, revisada e recriada dentro da família e de outros sistemas sociais e instituições. A avaliação diagnóstica, portanto, deve considerar se as experiências, os sintomas e os comportamentos de um indivíduo diferem das normas socioculturais e conduzem a dificuldades de adaptação nas culturas de origem e em contextos sociais ou familiares específicos. Isto significa que os limites entre normalidade e patologia variam em diferentes culturas com relação a tipos específicos de comportamentos. Os limiares de tolerância para sintomas ou comportamentos específicos são diferentes conforme a cultura, o contexto social e a família. Neste sentido três aspectos precisam ser considerados em uma avaliação:

1. Síndrome cultural é um grupo de sintomas concorrentes, relativamente invariáveis, encontrados em um grupo cultural, em uma comunidade ou em um contexto específico.

2. Idioma cultural de sofrimento é uma expressão linguística, ou frase, ou forma de falar sobre sofrimento entre indivíduos de um grupo cultural.

3. Explicação cultural ou causa percebida é um rótulo, atribuição ou aspecto de um modelo explanatório que fornece uma etiologia ou causa concebida culturalmente para sintomas, doenças ou sofrimento.

“Um transtorno mental é uma síndrome caracterizada por perturbação clinicamente significativa na cognição, na regulação emocional ou no comportamento de um indivíduo que reflete uma disfunção nos processos psicológicos, biológicos ou de desenvolvimento subjacentes ao funcionamento mental. Transtornos mentais estão frequentemente associados a sofrimento ou incapacidade significativos que afetam atividades sociais, profissionais ou outras atividades importantes. Uma resposta esperada ou aprovada culturalmente a um estressor ou perda comum, como a morte de um ente querido, não constitui transtorno mental. Desvios sociais de comportamento (p. ex., de natureza política, religiosa ou sexual) e conflitos que são basicamente referentes ao indivíduo e à sociedade não são transtornos mentais a menos que o desvio ou conflito seja o resultado de uma disfunção no indivíduo, conforme descrito”. (DSM-5)

Como é a vida cristã em relação aos problemas psicológicos?

A tradição cristã assume que Deus é pessoa; ele pensa, age e sente. Eu também digo que sou uma pessoa que penso, ajo e sinto. Mas só podemos pensar em pessoalidade como uma unidade. Temos o hábito de descrever o que somos em partes que nos constituem de várias maneiras como: corpo e espírito; ou como minha parte física e espiritual. Há ainda a possibilidade de pensarmos em uma divisão de nós mesmos como intelecto, vontades e emoções. Embora seja possível observar assim, essas são apenas divisões didáticas, pois em termos bíblicos, somos uma unidade (ser integral).

Dessa explicação emergem duas questões fundamentais: 1) o ser; 2) a existência. Estes são os dilemas mais fundamentais de todo homem, independente de sua cultura, etnia ou religião. Ninguém escapa ao fato de existir. Por isso estamos sempre à voltas com a pergunta "Quem eu sou?" Porém esse questionamento só pode ser feito por uma pessoa (um ser relacional) tomando por referência um outro ser relacional absoluto e infinito. Neste aspecto a pergunta certa é: "Quem sou eu em relação a Deus?", pois não existe resposta sem um criador pessoal. Nosso ponto de referência infinito é de natureza pessoal (relacional).

O que eu sou como pessoa? Dentre outros aspectos destacam-se dois: sou racional e moral. Do aspecto da minha personalidade, sou como Deus, mas por outro lado sou como os animais e as máquinas, porque eles também são finitos. Só que sou diferente deles, poque sou pessoal, como Deus é pessoal/relacional.

A rebelião do homem é tentar existir fora do círculo no qual Deus o criou para existir. Quando se tenta ser o que não é, todos os elementos que ele é levantam-se contra ele. Francis Schaeffer diz que “aquilo que somos nos separa de nós mesmos”. Até mesmo o ambiente familiar pode produzir sérios danos nessa forma de ser que Deus arquitetou. Por exemplo, quando os pais colocam uma pressão indevida sobre um filho, ao expressar expectativas altas demais de comportamento ou de sucesso – simplesmente porque a criança é da sua família.

 → Um dos resultados psicológicos da rebelião do homem é o medo. Novamente com a ajuda de Schaeffer, falaremos de três tipos de medo, que englobam todos os outros:

O medo do impessoal. A Psicologia tradicional ensina que a melhor maneira de lidar com o medo é agir “como se” Deus existisse. Para Jung, “Deus não passa de alguma coisa que atravessa minha vontade fora de mim ou surge do inconsciente coletivo dentro de mim. Chame qualquer coisa de Deus e renda-se a ele”. O fato é que quanto mais se conhece a própria humanidade, mais se percebe a falta de identidade. Sem um Deus pessoal, os homens estão apenas diante de um fluir de partículas de energia, disso surge o temor real do impessoal. Para ilustrar isso, podemos pensar que toda criança tem medo de uma situação impessoal, quando ficam sozinhas no escuro, geralmente durante a noite. Se os pais ensinam que Deus está ali, presente com ela, o medo da impessoal é tomado por uma presença que ajuda a superar o medo. Infelizmente, nossos filhos dormem (des)acompanhados por suas televisões repletas de hiperestimulação sensorial (cores, movimento, ação, etc), quando não, por filmes carregados de violência e imoralidade.

O medo do não ser: O homem moderno perdeu a referência de onde ele veio, por isso não tem qualquer referência ao Ser, isso o faz se trancar numa sequência do puro acaso. Sem memória e tradição, ele perde o referencial de como os atos de Deus na história o ajudam a ter esperança no futuro.

O medo da morte: para o escritor e filósofo Arthur Schopenhauer, o tema da morte é definido com um “viver para sofrer”, porque o escritor tinha visão distorcida e diferente sobre a vida e era negativista, inclusive sobre a morte. Já o francês Jean Paul Sartre, “a angustia surge no exato momento em que o homem percebe sua condenação irrevogável à liberdade (...) não pode optar por escolher a não ser (...) essa condenação à liberdade lhe gera angústia por saber que ele não é o senhor de seu destino”. Em contraste a essas visões de mundo, o cristianismo ensina que existe uma continuidade de vida, em uma linha horizontal, direto desta vida até o mundo vindouro. O abismo é passado com o novo nascimento; “já passamos da morte para a vida”, conforme I Jo 3:14. A morte foi vencida pela ressurreição do Filho de Deus, por isso não precisamos mais temer a morte, pois ela não é o fim de todas as coisas. Nenhum esforço psicológico precisa ser empregado para negar ou sublimar este fato o qual todos, sem exceção, terão que enfrentar.

Diante do exposto, afirmamos que o contrário do medo não é a indiferença, mas o amor que Deus derramou em nossos corações por meio de sua graça infinita, ao entregar seu Filho como sacrifício vivo, substitutivo e vicário na cruz, por todos os seus eleitos. Amor que não está firmado em sentimentalismo, mas um amor que foi capaz suportar toda ira de Deus, recebendo o castigo em nosso lugar. Lembremo-nos então das palavras do apostolo amado que corroboram essa ideia:

"No amor não existe receio; antes, o perfeito amor lança fora todo medo. Ora, o medo pressupõe punição, e aquele que teme não está aperfeiçoado no amor". I Jo 4:18