Quando Deus arregaçou as mangas


Por Aender Borba
Os textos base dessa reflexão são Isaías 52.7-10 e João 1.1-14
O Natal é uma época de grandes controvérsias no que diz respeito à nossa posição teológica sobre seu significado. Mas será que existe um “verdadeiro significado para o Natal”? A resposta é NÂO! Natal é uma coisa só! Sobre isso vamos falar agora.
Invariavelmente, ouve-se dizer que o Natal é uma época marcada pela hipocrisia. A maioria das pessoas envolve-se em uma comoção coletiva que resulta na consequente lembrança e ajuda aos mais pobres; outros, com um espírito quase honesto, mas ignorante, podem achar que as trocas de presentes e festas abastadas de comida e bebida são um sinal de gratidão pelo fechamento de mais um ciclo de trabalho, conquistas, etc. Os mais radicais vão denunciar veementemente o deus deste século - o comércio, e dizer que "tudo é comércio". Outros estarão mais preocupados em esclarecer se Jesus nasceu mesmo no dia 25 de Dezembro, se o pinheiro é parte de uma tradição pagã, se se deve colocar ou não uma árvore de natal na sala de casa, e por ai vai...
Eu arrisco dizer que tudo isso não passa de uma grande ilusão. Falta honestidade para fazer a única pergunta relevante sobre o Natal: "será realmente verdade essa história cristã de DEUS tornar-se um bebê humano?
 
Há vários argumentos de refutação. "Isto foi uma invenção tardia de cristãos espertos; não aconteceu de verdade". "A ciência provou, ou talvez a história tenha provado, que não pode ter acontecido". Só um louco acredita nesse mito".
Diante disso, devemos nos perguntar: quem as pessoas pensam que Deus é? 
Existem diferentes maneiras pelas as pessoas podem imaginar Deus e o mundo se relacionando.
  Há os que pensam que Deus e o mundo estão em dois universos separados. Para estes, não é possível ter certeza sobre nada, nem de si mesmos, o que dirá de Deus. Ainda que não neguem a existência de Deus, não se pode saber muito sobre ele, pois é impessoal e distante, santo demais para se ter algum tipo de relação com ele. 
Outra maneira, diz que Deus e o mundo não estão separados de forma alguma: eles são essencialmente a mesma coisa. “Jesus era divino, mas também o meu cachorrinho e as borboletas do meu jardim. Tudo é divino.

Como os primeiros cristãos, percebiam Deus em relação ao mundo e como eles entenderam quem foi Jesus?
 
Ao lermos nos Salmos e especialmente nos profetas, encontramos Deus e o mundo se relacionando de uma forma muito dinâmica. Deus criou o mundo e permaneceu soberano sobre ele, a despeito da rebelião humana. Pode-se perceber seu poder e sua glória no mundo, não porque o mundo é divino em si mesmo, mas porque permanece ativo em Deus. Deus sabe que há um problema com o mundo e toma a iniciativa de consertá-lo.
No pensamento judaico antigo encontra-se sofisticadas maneiras para dizer que o Deus único estava ativo no mundo sem deixar de ser transcendente sobre o mundo. Encontramos, por exemplo, a Sabedoria (Pv 9:1) quase como um ser separado (corporeificado) realizando tarefas em obediência ao criador. A Lei de Deus (Js1:8) a Torah, dando forma à vida nacional de Israel. Vemos a Glória de Deus (Nm 14:10) fazendo seu lar no Templo em Jerusalém. Eles falavam do Espírito de Deus (ISm 16:13) atuando nos profetas. A Palavra de Deus: criadora no princípio, falada para e pelos profetas, que ainda viria e faria o mundo abalar.
Todas essas são maneiras de referir-se à Presença e Atividade de Deus no mundo. Percebe-se claramente que Deus e o mundo estão em uma relação mutualidade. Deus é transcendência e imanência. 
 
Em Jo 1:1-14 - “No princípio” [B'reshit]: João está intencionalmente descrevendo um novo Gênesis, uma nova Torah. Além disso o "Logos" encarna e vem viver como homem entre os homens. Deus está se tornando um ser humano que vive, que respira, que fala.
A Glória de Deus, ao invés de habitar no Templo, agora habita no encarnado. E, diz João: "... e vimos sua glória, glória como a do unigênito do Pai". O Rei de Israel, o ser (self) de Deus. Todas as formas de falar sobre a relação de Deus com o mundo convergiram em Jesus.

A razão pela qual o Cristianismo soa como uma religião difícil de ser compreendida pode residir na não compreensão deste EVENTO que mudou a história do mundo, pois a partir dele, o braço descoberto do Senhor, agora estava revelado diante de todas as nações (nosso texto de abertura).Como diria Francis Schaeffer "O cristianismo não é uma série de verdades, no plural, mas é a verdade escrita com V maiúsculo. É a verdade sobre a realidade total, não apenas sobre assuntos religiosos". Portanto, tentar dar um sentido para o Natal fora da visão cristã é o mesmo que tentar tocar "o Messias" de Handel usando um berimbau. 

O profeta Isaías fala várias vezes do “braço de Deus". “O Senhor virá com poder, e seu braço governará”;“Desperte, desperte, oh braço do Senhor, desperte e derrote os inimigos e liberte Israel”;“Quem acreditou em nossa pregação e a quem foi revelado o braço do Senhor?”No nosso texto, ele diz: “O Senhor desnudou seu santo braço diante dos olhos das nações e todos os confins da terra verão a salvação de nosso Deus”.
Sem dúvida uma imagem do seu supremo poder, mas dizer que "Deus desnudou o seu santo braço” significa que ele está "arregaçando as mangas" para realizar todo trabalho em favor da humanidade, não obstante nossos pecados nos manterem separados dele. 

Embora a imagem do "braço do Senhor" se desnudando tenha começado como uma imagem de poder, é preciso remontar àquele momento em que o Verbo encarnado está ali, na manjedoura, com seus bracinhos abertos, rodeado por bois, jumentos, quem sabe chorando de fome, desejando o seio de sua mãe. O Todo-poderoso revestiu-se de fragilidade (esvaziou-se). Anjos cantaram anunciando sua chegada, pastores ajoelharam-se para receber o Salvador, Cristo, o Senhor. Aquele que agora chora o choro pueril, choraria ao saber da morte do amigo que já era de três dias, por ver a desolação de Jerusalém e finalmente quando seus dois braços foram abertos à vista de todos naquele instrumento de desonra e dor, a cruz. Eis a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade; a Palavra que se fez carne e tabernaculou entre nós. Isso é Natal!!

Qualquer tentativa de explicar o Natal sem essas "lentes" pode conduzir a uma falsa espiritualidade. Você pode até se comover com as canções natalinas, envolver-se me campanhas para ajudar os mais vulneráveis, clamar pela paz mundial, mas sem a verdade do Verbo encarnado, isso só o conduzirá a uma devoção débil e um respeito frio e distante. Talvez você sinta-se motivado a mudar o mundo, mas sem o a Palavra Criadora, todo esforço humano é inútil. No final você só encontrará cansaço fatigante e dirá que "nada valeu a pena". Você poderá até sentir-se confortável em relação a Deus quando as coisas estiverem indo bem, mas você não terá onde se esconder quando elas fugirem do seu controle.

Não existe outro significado para o Natal além deste lindo evento. O braço do Senhor se desnudou para nos salvar. Nele (Jesus), agora, repousa toda a plenitude. (Cl 1:19). 
Cantemos e adoremos como sua mãe, Maria:
Ele realizou poderosos feitos com seu braço; dispersou os que são soberbos no mais íntimo do coração. Derrubou governantes dos seus tronos, mas exaltou os humildes. Encheu de coisas boas os famintos, mas despediu de mãos vazias os ricos.” Lucas 1.51-53

Feliz Natal!!!