O lugar da pergunta na existência humana

Por Aender Borba

Um dos atributos humanos que mais caracterizam nossa matriz transcendente é a pergunta. A pergunta tem o poder de abrir horizontes de significado no próprio acontecer que a vida é.

Antes de desenvolver, façamos um retorno às funções das palavras interrogativas em nosso idioma. Existem três classes de palavras interrogativas na língua portuguesa. 
a)Pronomes adjetivos interrogativos: que, qual, cujo, quanto (incontável), quantos (contável), cujo, de quem.
b) Pronomes substantivos interrogativos: quem, que, qual, quantos.
c) Advérbios interrogativos: onde, quando, como, por que, para que. 
Especialmente essa última classe de palavras, os advérbios interrogativos, são muito significativos para a dinâmica do psiquismo humano. Elas têm a função de orientação no tempo e no espaço; conceitos que não costumamos apreender de forma atenciosa, pois, ao nascer, somos lançados no mundo submetidos a essas duas categorias fundamentais. Gastamos tempo (geralmente em entretenimento) e ocupamos espaços (aglomerados na falta de mobilidade e no corre-corre da vida urbana). Damos pouca importância ao fato de que grande parte de tudo isso nos constitui e reflete a nossa busca por horizontes de significado para a existência.

Voltando à categoria dos interrogativos, quando usamos o advérbio "onde" questionamos sobre nosso lugar no mundo; ao usar o "quando" as implicações temporais querem forjar nossa história, ou a biografia que nos constitui, nosso presente, passado e futuro; "como" remete aos processos que mobilizam nossos afetos, nossos desejos e nossa busca por realização; "para que" conduz a um saber sobre a finalidade, ou o objetivo para o qual existimos; já o "por que" direciona o sujeito às causas e razões pelas quais as coisas se dão. Certa vez, aprendi que o "por que" fecha o inconsciente, mas pode-se dizer que ele abre a consciência para encontrar as razões pelas quais as coisas chegam até nós.
A meu ver, uma palavra interrogativa tem a prerrogativa de lançar o sujeito em um conhecimento sobre o mundo e sobre si mesmo. Quem nunca ouviu falar das perguntas filosóficas clássicas (quem sou eu? de onde eu vim? para onde eu vou?)? A questão que pretendo levantar não é sobre a natureza da pergunta, apesar disso ser extremamente importante. Minha intenção é reforçar a ideia de que, nós humanos, somos constituídos pelas perguntas que fazemos a todo instante durante nossas vidas.
Mesmo uma criança de 2 a 3 anos é capaz de fazer perguntas extremamente significativas sobre a vida, ou sobre as tensões que vivencia interiormente, num sinal de busca por horizontes que dêem significado para sua existência. Recentemente, em meu trabalho, deparei-me com uma situação extremamente comovente e provocadora. Uma das crianças que acompanho, durante uma de minhas aulas do Programa Só-letrar, chamou-me e pediu para que eu escrevesse uma cartinha para ela. Na frente de outras colegas, não querendo se expor, ela chegou ao pé do meu ouvido e começamos os seguinte diálogo, bem baixinho: 
-- Professor, pode escrever uma cartinha para mim?
Eu, animado com o empenho dela, disse: 
-- Claro que sim! O que você quer que eu escreva?
Ela disse:
-- Desenha um coração bem grande no meio da folha e escreve:

Comecei a escrever dentro daquele coração as seguintes sentenças que ela ditava:
 
"Mamãe, por que você me deixou aqui neste abrigo? 
Por que você não vem me buscar? 
Eu sinto tantas saudades de você! Aonde você está?
Meu coraçãozinho está doendo de saudades de você.
Mamãe, eu te amo do fundo do meu coração!"

No primeiro momento, tive que conter as lágrimas, pois eu havia de me dado conta de que ela não queria apenas escrever a cartinha, ela queria expressar o que a estava incomodando naquela ocasião. Aquelas perguntas estavam sendo feitas para dar sentido a todo aquele sofrimento vivido por ela, pois se encontrassem respostas seria como se tempo e espaço se fundissem para realizar o que de mais importante e esperado acontecesse em sua vida. Tal foi a minha surpresa e emoção naquele momento, que fui capaz de perceber que a busca por aquelas respostas apontavam não apenas para a realização de um desejo, mas tinham a potência para aprofundar o sentido da existência e o auto-conhecimento daquela garotinha. Tudo que ela queria era saber sobre a vida, sobre o futuro, sobre os processos que a levaram até aquele lugar, sobre sua história. Suas perguntas queriam dar conta do que ela é.

Nunca vou esquecer aquele dia! Tudo isso me fez perceber que parte do que somos é constituído de perguntas, que nem sempre serão respondidas, mas se acolhidas e cuidadas com o zelo, produzirão esperança: uma espera atenciosa.