São Tomé e Príncipe - impressões de um psicólogo

Por Aender Borba

Janeiro de 2014 foi um mês para recordar eternamente. Tive a grata satisfação de fazer uma viagem para o país (ilha) africano de São Tomé; que foi viabilizada pela parceria entre a OMCV (onde trabalho) e a agência missionária JOCUM. A expedição foi programada e guiada pelo Tio Pedro; um homem extremamente comprometido com a vida humana e de uma sensibilidade inigualável, além de sua força hercúlea para o trabalho. 
A equipe foi composta de 22 pessoas, dentre os quais 5 eram da OMCV. Realizamos um trabalho lindo junto às crianças da creche Criança Feliz, que fica nas dependências da base da JOCUM e é gerida por alguns missionários locais. Durante os 15 dias que permanecemos, as atividades se dividiram em dois tempos: pela manhã realizamos intervenções em sala de aula com as crianças e durante as tardes foi ministrada uma Oficina de Qualificação Pedagógica com temas sócio-psico-educacionais, que julgamos relevantes para as ações dos educadores locais. O restante do tempo foi empregado em visitas humanitárias às vilas de Milagrosa e Santa Clara e pequenos passeios pela cidade.
Os temas das oficinas foram emergindo das observações que fazíamos durante o contato com os nacionais à medida que íamos conversando e construindo nossa impressões.
Neste texto quero focar em alguns aspectos que me chamaram muita atenção: a condição (des)humana em que os mais vulneráveis ali se encontram.

Os pobres
Na convivência diária com os moradores de vilas e aglomerados, ocasionalmente vejo algo que me surpreende em termos das condições de precariedade em que eles vivem. Em São Tomé, cada segundo de contato com as comunidades pobres eram experiências impactantes. Em uma conversa despretensiosa com um morador local, ele disse que a média de refeições (refiro-me a comida de significativo valor nutricional - arroz, feijão, farinha, etc) é de 3 a 5 por semana. No restante das vezes eles se alimentam do que a terra dá: jaca, fruta-pão, buzio, e outras. Ainda bem que a generosidade divina agraciou São Tomé com relação aos frutos que a terra dá, do contrário a situação de fome seria ainda pior. Em São Tomé pude conhecer de perto o significado de pobreza como ausência de bens, mais que isso, ausência do mínimo necessário para se viver. A subnutrição, as barrigas inchadas de vermes, as roupas rasgadas, os pés descalços, a tristeza no olhar, o sono quase incontrolável das crianças...

As crianças
Foram elas minhas maiores mentoras. Sempre a espera de algum presentinho, ou de um carinho, lá estavam dispostas a serem fotografadas e com muita vontade de conversar. Aqui vale um parêntesis engraçado - as pessoas nas ruas ficaram muito impressionadas comigo; pelo meu tamanho, minha cor e meus pelos no peito e braços. Custei acreditar que essas características seriam admiráveis por eles, mas as reações femininas e os depoimentos das crianças me convenceram de que era verdade). Aproveitei-me desse fato para buscar me aproximar das crianças e aprender sobre eles. Foi numa dessas conversas que descobri que a prática do abuso sexual infantil é algo tão comum em São Tomé, principalmente nesses lugares mais isolados, que a maioria das crianças tem o costume de levar uma faca ou instrumento cortante dentro da própria roupa para se defender. Nas palavras de uma criança de 11 anos (Leila) "os homens que vêm de longe puxam a gente para o mato e temos que correr ou cortar eles". Descobri também que a erotização precoce é um problema muito comum entre eles; algumas vezes porque os próprios pais, não tendo um lugar de privacidade para o ato sexual, fazem na frente dos filhos; outras vezes porque o abuso sofrido faz aflorar desejos sexuais muito cedo em alguns meninos, que reproduzem a violência em suas irmãs, primas ou vizinhos. Ouvir essas histórias ajudou muito a compreender a degradação humana sofrida por este povo.

As mulheres
Impressionou-me muito a condição das mulheres em São Tomé. Passados alguns dias, tive a grata oportunidade de conversar com algumas mulheres, na modalidde de Plantão Psicológico. Dentre os temas trazidos por elas estavam a criação dos filhos (dificuldades com o comportamento), relacionamento familiar, mas principalmente a vontade que elas têm de estabelecer um matrimonio. Para elas, mulher boa é mulher que tem muitos filhos. Em São Tomé a poligamia é permitida. A maioria dos homens possui mais de uma mulher, o que causa grande sofrimento a elas, pois surge uma incongruência entre o desejo de se casar e constituir família e o risco de ter que aceitar a infidelidade masculina; o que gera muito sofrimento para elas. Tudo isso aliado ao fato de que não existem políticas públicas específicas que as defendam em casos de violência.  Outra observação que fiz, é que as mulheres sentem-se tão subjugadas naquela cultura, que as tarefas pesadas só cabem as elas. Nossa equipe organizou uma escala de ajuda na cozinha e nos afazeres diários (cozinhar, limpar os aposentos e banheiros, etc). Nas ocasiões em que fui escalado para cozinhar, as mulheres ficavam profundamente incomodadas com o meu trabalho. Elas não deixavam eu cortar a madeira e colocar no fogo, não deixavam eu revirar a panela, mas não era porque eu não sabia, e sim porque aquilo não era trabalho pra homem. Fiquei muito impressionado com tudo isso.

Aprendi muito, chorei muito, tive o privilégio de ajudar muita gente: ouvindo, aconselhando, ensinando, palestrando, fazendo tudo que estava ao meu alcance naqueles dias. A vulnerabilidade humana é e sempre será uma provocação para o meu trabalho e para o meu modo de ser no mundo. Estar com essa gente despertou uma reflexão sobre a minha própria condição e uma pergunta: como aquilo que deveria nos tornar iguais (nossa humanidade) pode ser ignorado e relegado a um estado de tal degradação? Só os humanos são capazes de desfigurar, ou deixar que se desfigure, um semelhante para que este perca as características que os tornam iguais; neste estado não se vê mais uma figura humana e sim um "monstro", um monte de ossos sobre pele, ou um bicho. Perdidas as idiossincrasias resta apenas ignorar que o outro existe, assim ele pode morrer de fome ou por escassez de bens essenciais à vida.
Que Deus nos ajude a não perdermos a sensibilidade pela vida humana e nos dê recursos para enfrentarmos as mazelas da vida aqui ou em qualquer outro lugar do mundo.