Pais que frustram os filhos os deixam traumatizados?

Por Aender Borba

No meu trabalho com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade; mensalmente desenvolvo com a amiga e Assistente Social, Míriam Eunice Ferreira, um projeto que se chama "Encontro com as famílias". O objetivo desses encontros é fazer uma aproximação das famílias com os Projetos Sociais e, a partir das demandas sociais observadas pela nossa equipe, oferecer informações aos pais e/ou responsáveis para que se impliquem no cuidado e proteção de filhos. Nos encontros que realizamos durante o ano, o foco foi a proteção integral da criança. Tratamos de temas como "desenvolvimento da infância até a adolescência", "como evitar acidentes domésticos", dentre outros.

Nestes encontros, alguns fatos me chamaram a atenção e me provocaram intensamente, destaco:
a) o número assustador de mães, que solitárias (muitas vezes abandonadas) não podem se esquivar da responsabilidade de criar e educar os filhos.
b) quando participam do núcleo familiar, surge a questão: onde estão esses pais (homens)?
c) a profunda inabilidade de ambos (pais e mães e/ou responsáveis) na execução da tarefa de criação/educação.

Sobre os dois primeiros aspectos, valeria uma reflexão mais aprofundada, mas já existe muita coisa escrita sobre isso, especialmente nos estudos sociológicos dos últimos 30 anos. Apenas para exemplificar, cito no link, alguns estudos estatísticos do IBGE, que mostram a presença ativa e crescente da mulher nos levantamentos demográficos, participação econômica, etc.

O ponto que pretendo ressaltar é que, fala-se muito que falta informação em ambientes de extrema pobreza, violência, abusos, tráfico, e outros, como se houvesse uma relação causal entre "falta de educação" e a pobreza. Como explicar então que as perguntas e os dilemas vividos por essas mulheres em contextos de vulnerabilidade são os mesmos que encontro na clínica, nas conversas com amigos, nos dilemas da vida escolar de um aluno de classe média, etc. Minha experiência clínica e até pessoal com minha filha (na ocasião com 5 anos) tem me levado a pensar muito neste fenômeno presente em contextos diversos. Crianças "mimadas" é um fenômeno cultural e não pode ser restrito à uma classe social. 

Quando atendo uma mãe moradora de uma vila, em condições mínimas de dignidade humana e percebo que suas perguntas são as mesmas de uma mãe de classe média, que me procura para fazer uma avaliação psicológica da filha, que estuda em uma escola altamente conceituada, fico provocado a pensar que isso é um traço cultural e não o resultado de acesso à informação ou quantidade de investimento financeiro que se faz nos filhos. Em ambos ambientes, ouço questões do tipo: "minha filha não obedece, o que tenho que fazer?"; "meu filho está indo mau na escola, o que devo fazer?"; "eu não corrijo o meu filho, pois se eu bater nele tenho vontade de matá-lo", etc.

Certa vez, um professor me disse uma frase que nunca se calou dentro de mim: "pai não é para ser amando; pai é para ser respeitado!". Na época essa frase foi indigesta, mas com o passar dos anos, descobri que ela faz todo sentido dentro de um contexto em que as funções paterna e materna estão bem definidas, assumidas e aplicadas. Grande parte dos problemas que os pais tem em relação à disciplina dos filhos é fruto de uma desorganização dos papeis de cada um dentro da própria casa, isso, considerando que eles existem. Voltando à questão da mulher, a maioria delas vive a ambiguidade de ser mãe e pai ao mesmo tempo; mãe na forma de amar e pai no ato de corrigir. O problema aqui, talvez seja como as mulheres lidam com essa ambiguidade entre função paterna e maternagem. Simbolicamente as mulheres podem exercer a função de pai, embora isso não faça parte da própria estrutura, isso lhes exige um esforço psíquico adicional muito grande, mas é o que na maioria das vezes acontece, ainda que inconscientemente.

Seguindo esse raciocínio, cabe ao pai o papel de ser a LEI, o NÃO, o LIMITE. Como muitos autores andam denunciando, nossa cultura está passando por um processo de feminilização. No meu ponto de vista, penso que faz mais sentido pensar no decaimento do papel da figura paterna, o "pai". Estamos num momento cultural marcado pelo afeto, como diz a socióloga Eva Illous, mas isso fica pra outro post. O fato é que os pais (machos) têm pouca ou quase nenhum habilidade e participação no processo de criação e educação dos filhos. A falta de envolvimento com essa questão relega o papel de educador exclusivamente às mulheres, neste caso, a presença e participação do pai restringe-se a um “presentinho” nas ocasiões festivas. Outros consideram o cuidado com os filhos menos masculino, e nesse ponto, permitam-me denunciar o pensamento machista e retrógrado ainda presente em nossa sociedade. Por outro lado, os poucos homens que se envolvem minimamente com essa tarefa são mau orientados e querem ser "amiguinhos" dos filhos, ou receber um tipo de amor (egoísta) apenas para suprir as próprias carências afetivas, provavelmente por conto do amor que não receberam de seus pais. Essa tentativa de encontrar prazer a qualquer custo, na relação com filho, revela o fracasso de se produzir um ambiente educativo e saudável.

O resultado dessa inabilidade, na minha opinião, revela-se na incapacidade dos filhos de lidarem com suas frustrações. Isto está relacionado ao fato de não reconhecerem essa experiência durante o período de sua formação como pessoa, na constituição do seu “eu”. 

O que quero dizer com isso? 

Minha tese é que o pai é a pessoa mais indicada para apresentar a frustração para o filho logo nos primeiros anos de vida. Frustar é educar e produz um desenvolvimento afetivo sadio. Basta pensar que, se uma criança cresce até atingir a segunda infância (4 aos 10 anos, aproximadamente) sem vivenciar uma frustração real e intensa, como ele vai lidar com isso mais tarde? Na adolescência e mais tarde, essa fatura será cobrada! Neste sentido, é muito importante lembrar que na descrição cultural, chamada de Geração Y, os filhos são levados a pensar que são especiais, únicos e que estão acima de tudo e de todos. Constituídos dentro dessa lógica, aqueles que alcançam algum sucesso, na maioria das vezes o fazem de forma maquiavélica, cruel e autodestrutiva. Basta perceber a estratégia de vitimização fortemente alimentada pelo discurso médico, que produz identidade e sentido para vida por meio dos rótulos (TDAH, Síndrome disso e daquilo...). Essa geração só consegue sobre-viver, assumindo-se como doentes (diferentes), mas com um "nome" (um significado que explica a existência e trás algum apaziguamento ao sofrimento) e só assim, “doentes”, portanto anormais, imprimem algum sentido à vida. A lógica é cruel, pios produz pessoas cada vez menos hábeis a enfrentar as dificuldades da vida. 

Por que o pai precisa chamar para si o papel de disciplinador? A resposta é simples: porque ele ama seu filho e o filho sabe disso! 

Permitam-me usar minha própria experiência, como já mencionei. Há alguns anos, minha filha estava com muita dificuldade de entrar na escola sem chorar. Eu e minha esposa fomos chamados pela diretora para pensar algumas estratégias que pudessem ajudá-la a enfrentar essa questão. Como psicólogo, cheguei a pensar naquela máxima: "em casa de ferreiro o espeto é de pau". Logo minha filha tinha que ter problemas emocionais que refletissem no seu comportamento na escola?... Depois de muitas tentativas e conversas com minha esposa, naturalmente, eu passei a produzir algumas frustrações em minha filha. Lembro-me de certa vez que ela chorou para entrar para a escola; pacientemente, eu a tomei em meus braços e passei a conversar, mas ela não quis falar nada, demonstrando um certo medo de mim. Foi então que tomei uma atitude radical. Passei a tratá-la com maior rigidez. No dia seguinte a essa conversa, cheguei do trabalho e eu não a recebi com o mesmo afeto de sempre. Ela veio até mim como se nada tivesse acontecido. Com o dedo em sinal de negação, eu disse: "papai ainda está muito triste com você. Você não conversa comigo, porque quer me abraçar?" Confesso que doeu mais em mim do que nela. Foi muito doloroso pra mim vê-la voltando, toda sem graça, para dentro de casa. No entanto, os resultados foram quase imediatos, no outro dia ela entrou na escola sem o menor sinal de choro. Naquela noite, eu a tomei no colo novamente e disse: “papai te ama e tudo que ele faz é pensando no seu bem. Mesmo que você não entenda agora. Vou fazer tudo que estiver ao meu alcance para que você se sinta protegida e feliz”. Com os olhos marejados, ela me abraçou e eu tive que conter as lágrimas.

Concluo afirmando que devemos re-pensar o papel de pai como educador. A pessoa certa para disciplinar os filhos é o pai. A experiência de frustração precisa ser vivida, sempre que possível, com uma correspondência de amor. Se os filhos inevitavelmente devem passar por essa situação, que ela seja momentânea e com quem a ama de verdade, pois o pai amoroso está disposto a recebê-la de braços abertos num sinal de apoio incondicional. Não será assim com alguns colegas, com a primeira entrevista de emprego, com a reprovação no vestibular, com o término de um namoro, etc. Nenhuma dessas situações, e parece-me que elas estão presentes em todos os contextos sociais, tratarão os filhos com a mesma dignidade, respeito e amor que o pai. Portanto, é dever do pai ensinar seus filhos sobre a experiência de frustração e permanecer ao lado deles durante os percalços dessa vida. 

A disciplina amorosa não deixa traumas nos filhos, mas sua falta certamente os deixará doentes!