Preconceito, Cura gay e ressentimento...

Por Aender Borba   

     Os que já tiveram a chance de acessar o meu perfil do facebook e outras redes sociais devem ter percebido que nos debates sobre a chamada "cura gay", tenho adotado uma postura bastante divergente da maioria das pessoas. Decidi escrever este post porque tenho recebido muitos questionamentos sobre meu posicionamento sobre o assunto. Sei que corro o risco de ser severamente ressarchado por alguns, mas prefiro me posicionar a me omitir sobre um assunto que tem tomado proporções estratosféricas em nosso pais, especialmente nos últimos meses. 
     Algumas figuras que serão citadas aqui ganharam a antipatia de muita gente. Preciso mencioná-las para que o argumento seja exposto; sem denegrir suas imagens ou me aliar aos seus discursos. Aos mais exaltados, peço que suspendam seus julgamentos (preconceitos) e foquem no questão central que pretendo abordar: origem do termo "cura gay" e laicidade da psicologia.
     A centro de toda essa discussão está em um (PDL) - Projeto de Decreto Legislativo, de autoria do deputado João Campos - PSDB/GO, que “susta a aplicação do parágrafo único do art. 3o e o art. 4o, da Resolução do Conselho Federal de Psicologia no 1/99, de 23 de março de 1999, que estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação à questão da orientação sexual”. (Para ler o texto clique aqui). Como pode se ler, a princípio, este seria um assunto restrito aos psicólogos, e aqui começa minha desconfiança. Por que algo de interesse privado chega a ser pauta de reivindicação das manifestações populares que tomam o país? Na década de 90, quando a RDC foi escrita, muitos (a maioria) psicólogos não se sentiram atingidos pelo texto. O tema das "minorias" não repercutia como hoje nos meios de comunicação e o movimento LGBT's não tinha tanta força (política e mercadológica), nem visibilidade, na verdade nem tinha esse nome, que foi ganhando adesões conforme se estruturava. Por outro lado, o movimento evangélico (neopentecostal), da mesma forma que o LGBT`s, constituia outro tipo de minoria, porém ganhou corpo, representatividade e não pode mais receber essa nomenclatura.
     Vejamos texto da RDC 234 na íntegra: 
"CONSIDERANDO que o psicólogo é um profissional da saúde;
CONSIDERANDO que na prática profissional, independentemente da área em que esteja atuando, o psicólogo é frequentemente interpelado por questões ligadas à sexualidade;
CONSIDERANDO que a forma como cada um vive sua sexualidade faz parte da identidade do sujeito, a qual deve ser compreendida na sua totalidade;
CONSIDERANDO que a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão;
CONSIDERANDO que há, na sociedade, uma inquietação em torno de práticas sexuais desviantes da norma estabelecida sócio-culturalmente;
CONSIDERANDO que a Psicologia pode e deve contribuir com seu conhecimento para o esclarecimento sobre as questões da sexualidade, permitindo a superação de preconceitos e discriminações;
RESOLVE:
Art. 1° - Os psicólogos atuarão segundo os princípios éticos da profissão notadamente aqueles que disciplinam a não discriminação e a promoção e bem-estar das pessoas e da humanidade.
Art. 2° - Os psicólogos deverão contribuir, com seu conhecimento, para uma reflexão sobre o preconceito e o desaparecimento de discriminações e estigmatizações contra aqueles que apresentam
comportamentos ou práticas homoeróticas.
Art. 3° - os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para
tratamentos não solicitados.
Parágrafo único - Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades.
Art. 4° - Os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos
homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica.
Art. 5° - Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação.
Art. 6° - Revogam-se todas as disposições em contrário.
Brasília, 22 de março de 1999.
ANA MERCÊS BAHIA BOCK
Conselheira Presidente"
    Um ponto importante, que precisa ser lembrado, é que a função do CFP é regulamentar e fiscalizar, da melhor forma, a atuação dos profissionais de psicologia. Neste caso, parece que as negativas incisivas dos trechos em questão ultrapassam seus poderes, o que abre campo para diversas interpretações, e pode ter sido o erro cometido pelo Conselho. Se na época os dois grupos mencionados articulavam-se e cresciam, hoje, nem evangélicos, nem os gays são minoria nesse país, basta ver as volumosas passeatas intituladas "paradas gay" e "marchas para Jesus" que levam centenas de milhares de pessoas às ruas todos os anos. Curiosamente, membros dos dois grupos demonstram largo interesse pelo campo de atuação da psicologia, mas parece que o CFP não se ateve a este fato. No caso dos evangélicos, o número de psicólogos é imenso, tanto que, a então Conselheira Presidente do CFP, Ana Bock, enviou um ofício ao CPPC (Corpo de Psicólogos e Psiquiátras Cristãos), e este é o único lugar em que uma expressão muito importante e cara à Psicologia apararece: SOFRIMENTO HUMANO. "Aonde quer que se encontre sofrimento humano, o psicólogo buscará oferecer colaboração no sentido de sua superação ou, ao menos, de sua minoração." (Leia o texto AQUI). Infelizmente, essas palavras não compõem o texto da resolução, o que deixa alguma dúvida sobre as reais intensões do CFP, ao se pronunciar perante este grupo.
     Diante desse contexto, minha tese então é que todo esse "barulho" foi produzido por um motivo que poucas pessoas tem coragem de explicitar: RELIGIÃO. Será que alguém já se deu ao trabalho de parar para pensar nos personagens dessa trama? De um lado os "imorais" gays e de outro os "moralistas" evangélicos. "Uai", até o mais desavisado desconfiaria que todo esse alarde não é por DIREITOS HUMANOS e nem por MINORIAS, já que nenhuma das classes interessadas compõem uma minoria, e nenhum dos dois é mais ou menos HUMANO que outro. Ou estou errado? A luta é por interesses particulares!!!

Vejamos mais alguns personagens:

     Marisa Lobo, embora poucos saibam, ela tem sido uma pedra no sapato do CFP desde que surgiram denúncias de que estaria propondo a tal "cura gay". Marisa tornou-se conhecida na mídia por defender o que chama de "psicologia cristã" e pela afirmativa de que não negaria sua fé em hipótese alguma diante da ameaça de ter o seu registro caçado pelo CRP. (leia aqui).
     Silas Malafaia, outro psicólogo, pastor, que encarou a causa, porém com adversários bem definidos: os militantes gays. Talvez um dos mais conhecidos nomes do meio gospel (neopentecostal) hoje. Sua fama se extendeu ao participar de um programa de grande repercussão nacional (De frente com Gabi), o que lhe rendeu uma nota de repúdio no site do CFP (leia aqui).
     Para não extender demais, o "bode expiatório" de toda essa história, demonizado e odiado por muita gente, o pastor e deputado Marco Feliciano. Eleito, se assim pode-se dizer, para a cadeira de Presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, não tinha a menor expressão fora do metiê evangélico neopentecostal, tornou-se a figura mais falada nas mídias e nas redes sociais por causa de declarações racistas e por propor a votação da PDL acima citada.
      Outra figura importante é a do deputado Jean Willys, militante gay assumido, também ganhou visibilidade nacional, como deputado, após assumir uma posição beligerante contra o adversário, Marco Feliciano. Muito eloquente e articulado, gosta de usar termos bíblicos para defender suas ideias e chocar os adversários. Em uma passeata de Salvador ele escreveu um cartaz escrito: "Cristo era defensor das minorias".
     O que fica evidente é que o assunto central, que deveria ser a mudança proposta na RDC 234, que diz respeito unicamente aos psicólogos, transformou-se em uma briga entre fundamentalismo gay e fundamentalismo evangélico neopentecostal.
     Alguém pode estar se perguntando por que me refiro aos religiosos como "evangélicos neopentecostais". Porque isso faz toda diferença quanto à visão de mundo cristã adotada por este ramo do cristianismo. É necessário esclarecer que existe um fenômeno importantíssimo envolvendo isso tudo, que é pouco conhecido. Muitos cristãos evengélicos não se sentem representados pelos dois pastores citados, ambos neopentecostais. Existe uma grande parcela dos cristãos que não se identificam com as práticas, a retórica, a teologia e nem com as posturas deles. Para quem não sabe, tanto o Malafaia, quanto o Feliciano são figuras controversas e não tão queridas quanto se pensa, dentro da comunidade cristã. Embora existam pontos de convergência na questão de que trata este post, como por exemplo o vídeo do deputado Feliciano sobre o assunto, que compartilho o link aqui.  Um cristão, de outro ramo, não compactua com esses sujeitos nas sua práticas dentro do cristianismo, mas não pode discordar em outros aspectos, que estão fora da esfera religiosa, como por exemplo a cidadania e, neste caso, o exercício da profissão.
     Por outro lado, a militância gay, que parece saber usar bem as mídias e a própria influência do CFP, aproveitou a oportunidade para expor outro tipo de preconceito: o religioso, sem dar esse nome, é claro! Pois é absolutamente politicamente incorreto. Fico me perguntando se há nisso tudo algum interesse em defender DIREITOS HUMANOS ou de alguns humanos? Arrisco-me a dizer que na raiz de toda essa discussão existe um sentimentalismo que pode ser definido como uma forma de ressentimento, portanto um problema afetivo. O CFP fica ressentido com o posicionamento conservador dos cristãos, o que indica claramente seu posicionamento político e de certa forma religioso, lançando dúvidas sobre sua imparcialidade ao assumir certo esquerdísmo. Os gays ficam ressentidos por não conseguirem se impor como classe extra-humana, pois ao reividicarem direitos humanos, deveriam contentar-se em serem tratados como qualquer humano, digno de respeito independente de sua orientação sexual. Os evangélicos ficam ressentidos porque acham que a ciência e o Estado deveriam tratar todo comportamento que consideram desviante como doença e não como pecado. Basta ver os códigos CID 10 - F64, F65 e F66, que versam sobre o tema. Os efeitos colaterais de toda essa panasséia emocionalista é que não se sabe mais o significado de preconceito, homofobia, liberdade, política, etc.  
     Sem dúvida, este assunto vai render muito ainda. Acredito que depois desse post, provavelmente, serão necessários alguns outros com temas que não puderam ser aprofundados dessa vez.
     Considero que a discussão sobre doença e patologização da homossexualidade estará sempre atravessada por questões religiosas, uma vez que a má compreensão do conceitos de liberdade e moralidade (pretendo escrever sobre isso) tornaram-se extremamente banalizados na sociedade pós-moderna, por isso, algumas práticas sexuais contradizem certas crenças, no sentido de serem vistas como imoralidade. O ponto que quero afirmar é que, tanto o Estado como a Psicologia deveriam resguardar-se a uma posição de laicidade. Escolhas religiosas são de foro íntimo e pessoal e não são definidas por uma questão de ressentimento, ou afinidade emocional. Uma autarquia como o CFP não deveria se prestar a apoiar agendas ocultas de qualquer movimento que seja, sob o discurso de defender direitos humanos e minorias. Esse tipo de ressentimento preconceituoso tem sido, para muitos, o único critério para se posicionar politicamente. Que fique claro que homossexualismo não é doença, e que não tem ninguém propondo "cura gay", muito menos coagindo pessoas coercitivamente a passar por tal tratamento. Não existem psicólogos que obrigam seus pacientes (clientes) a se submeter ao seu tratamento. Se não houve vínculo (transferência), isso já é ocasião para que o tratamento não aconteça. Nenhum gay é obrigado a procurar um psicólogo tratar sua homossexualidade, no entanto pode procurar acompanhamento por essa e por outras causas, se lhe causa sofrimento. Da mesma forma, um hetero não fica obrigado a "sair do armário" se isso lhe for sugerido ou imposto por um psicólogo ou qualquer outro profissional. A escolha é do sujeito!