Desencontros linguísticos

Por Aender Borba

    Durante a graduação, numa aula de psicologia social, a professora fez a seguinte pergunta: qual é a primeira instituição em que os seres humanos são inseridos? A maioria dos colegas, inclusive eu, respondeu: a família. Para surpresa geral de todos, a resposta estava errada e a professora disse que é a linguagem. Naquele momento, a afirmação não parecia fazer o menor sentido, pois nunca havia pensado na linguagem por essa perspectiva. Para mim, a linguagem era apenas um modo de comunicação, um meio pelo qual estabelecemos contato com os outros, etc. Eu não tinha clareza de como estamos imersos nela e, de certo modo, como estamos institucionalizados nesse universo de sentidos e significados das coisas. 
     No trabalho em aglomerados de BH e Contagem, percebo e afirmo que lá existe um modo próprio de pensar e de comunicar, um cultura estabelecida, que muitas vezes, nos deixa totalmente desconectado de tudo que se passa a nossa volta. 
     Por exemplo: minha nova descoberta foi a expressão "zero brava". Sempre ouvia algumas crianças e adolescentes dizendo essa expressão, que para mim não fazia o menor sentido. Decidi perguntar, mas nem eles sabiam comunicar o que a expressão significava. Depois de uma árdua pesquisa de campo descobri que "zero brava" é um modo que eles se referem a palavras com conotações sexuais, como por exemplo: cabeça, cano, longo, grande, macio, etc. Interessante é que essas palavras são um "zero brava" independente do contexto em que aparecem. 
    Uma experiênicia engraçada, com uma menina que acompanho em um desses projetos, expressa muito bem como é preciso imergir na cultura local para descobrir os milhares de significados, alguns inimagináveis, que as palavras passam a ter. Vamos lá!

     Essa adolescente, veio do interior de Minas para morar em Belo Horizonte e passou a frequentar o projeto há poucos meses. Durante o intervalo de uma aula para outra começamos uma conversa sobre a violência local e as diferenças que ela percebia em relação ao lugar de onde veio. 

  -Perguntei: qual a maior diferença entre BH e a cidade de onde ela veio? 
  -Ela: lá não tem tanto bandido como aqui.
  -O irmão dela disse: mas tem alguns... (citou um nome, que eu não me lembro).
  -Ela: mas esse ai é "ladrãzinho de galinha".
  -O irmão: mas tem o outro fulano.
  -Ela: Ah! Esse era estuprador.
  -Eu: Estuprador? Como assim?
  -Ela: Uma vez, ele enfiou um pau no olho de ciclana.
  -Eu: (inocente), então ele não era estuprador.
  -Ela: era sim, professor.
  -Eu (fazendo um gesto de um pau -pedaço de madeira - sendo introduzido no globo ocular): mas ele não enfiou o pau no olho dela?
  -Ela: não professor! Não é esse olho, não!

     Quando eu entendi o significado que ela atribuiu ao olho, quase não nos aguentamos de tanto rir. Pensei comigo: Nós dois estamos perdidos por aqui.