Relações humanas e relação terapêutica.

Por Aender Borba

Senti-me provocado a escrever estas linhas depois que um grande número de pessoas (amigos e conhecidos) tem me procurado para perguntar sobre certas práticas de certos psicólogos(as), dos quais suspeita-se que suas posturas não coincidam com o que seria esperado de um profissional dessa classe. De modo geral, as pessoas, mesmo não tendo conhecimento profundo sobre o que faz um psicólogo(a), têm uma concepção prévia do que lhes seria inerente. Mais ou menos assim: do mesmo modo como açougueiro entende de carnes, um médico de saúde, um engenheiro civil de edificações; um psicólogo(a) deve entender de gente, de emoções, de comportamento e de ética.
A partir dessa provocação, decidi refletir um pouco sobre um assunto que nunca vai se esgotar: a relação terapêutica. Não é possível esgotar porque ele é a mola propulsora da Psicologia como ciência e profissão, independente do campo de atuação, seja na clínica, nas organizações, no esporte, no hospital e outros.
Minha intenção não é difamar ou denunciar quem quer que seja (embora me sinta tentado a isso algumas vezes), mas julgo necessário críticar (em seu sentido original, que é estabelecer critérios), para que a profissão que exerço torne-se relevante àqueles que buscam ajuda dessa natureza. Também não quero qualificar as diferentes abordagens em psicologia que existem, pois as entendo como métodos, "lentes" pelas quais o profissional em psicologia lança um olhar sobre o sofrimento do outro. Seria impróprio e injusto com os psicanalistas (refiro-me aos psicólogos/as), analistas do comportamento, existencialistas, sistêmicos... que conheço e reconheço seus excelentes trabalhos.

O professor José Paulo Giovanetti em seu texto "A relação terapêutica na perspectiva fenomenologico-existencial" menciona três condições para que toda relação entre duas pessoas possa ser compreendida como humana:
a) "O conhecimento do outro como sujeito". Isso significa que não devemos (pelo menos os psicólogos) dizer ao outro o que fazer, pelo contrário, é preciso que cada um protagonize a própria vida a partir de suas escolhas.
b) "Aceitação do outro como ele se apresenta". Isso significa que devemos reconhcer o outro como diferente e aceitar acolher essas diferenças.
c)"Mobilização de afetos". A dimensão afetiva é responsável pela criação de vínculos entre as pessoas.

Além das condições, o professor cita quatro elementos que estruturam a relação, que são:
a) O encontro é a dialética entre as pessoas que compõem a relação e pelo menos um deles se abre para a experiência do outro.
b) O diálogo é o tipo de comunicação que se estabelece entre as pessoas que estabelecem um encontro.
c) A reciprocidade é a base para o diálogo, ou seja, é participar da existência do outro.
d) O vínculo é aquilo que sedimenta a relação, é o que dá qualidade à relação.
Finalizando seu texto, o autor diz que "em uma relação humana deveriam ser encontradas todas essas caracteísticas", mas ele acrescenta duas que não podem faltar na relação terapêutica: humildade do terapêuta para deixar que o novo emerja na relação e respeito para não interromper ou influenciar a narrativa do sujeito.
Como disse no início desse texto, muitas pessoas já me procuraram para falar de certas posturas que psicólogos/as adotaram com eles, e que intuitivamente, eles perceberam algo de errado, mas não tinham uma resposta no momento. Cito algumas:

"Procurei um psicólogo há dois meses, quando fui diagnosticada por um médico que estava com depressão. Na primeira sessão, ele fez alguns testes e disse que, só pelo resultado, eu não tinha depressão. Na segunda sessão, comecei a falar sobre minha mãe, mas ele só ficou perguntando se eu tinha relação sexual com meu namorado. Na verdade suspeitei das intenções deles".

"Quem disse que você precisa amar seu pai e sua mãe? Isso é se conformar ao que todo mundo acha."

"Eu nunca fiz terapia, mas agora que comecei, nunca mais vou parar. Se eu soubesse que era assim... agora preciso dela pra tudo".

Eu poderia citar vários trechos, mas só estes são suficientes para ajudar na reflexão sobre qual deve ser o tipo de relação que se busca na hora de decidir por um profissional de psicologia. Note que todos eles rompem radicalmente com os conceitos trabalhados no texto, especialmente, a falta de repeito para com o sujieto, que na maioria das vezes se lança absolutamente vulnerável em uma relação terapêutica, mas corre o risco de ser manipulado, eganado e decpcionado. Infelizmente, muitos "profissionais", por despreparo, insensibilidade humana, ou mesmo por má intenção, provocam mais dores do que alívio aos sofrimentos que as pessoas compartilham com eles.
Espero, sinceramente, que este texto ajude os leitores a perceberem quais atitudes devem encontrar nos psicólogos/as que procurarem. Espero também que estes conceitos possam servir orientação para que consigamos estabelcer relações humanas autênticas e verdadeiras, uma vez que somos seres de relação.