Pra pensar a (in)disciplina...

Por Aender Borba
Sempre que sou procurado por pais ou responsáveis por crianças e adolescentes, tanto no contexto escolar (de educação não-formal - onde atuo), quanto no contexto da própria família, percebo como é frequente a queixa sobre o comportamento indisciplinado dos infantes. Sem dúvida, este é um dos fenômenos mais aterrorizantes para pais e educadores.
No caso dos pais, quase sempre, a procura por uma orientação neste sentido soa como um pedido de socorro. Há uma falta de habilidade generalizada dos pais em lidar com a educação dos próprios filhos, especialmente, na questão da disciplina. Herança da década de 70, os pais apreenderam de forma equivocada a questão da correção dos filhos. É aquela velha estória de se jogar o bebê junto com a água suja da banheira. Muitos pais exageravam na intensidade disciplinar imposta a seus filhos, o que se dava em forma de espancamento e agressão, e não de uma repreensão amorosa e carregada de sentido. Na tentativa de reduzir a violência contra as crianças, não se corrige mais de forma alguma. Obviamente, ninguém pode concordar com atitudes violentas, desproporcionais e sem intencionalidade educativa. No entanto, um aspecto importante do desenvolvimento infantil, obseravado nos estudos de Jean Piaget, ficou negligenciado: "a coerção se faz necessária para que a criança conheça as regras e tenha noções do certo e do errado; do bem e do mal". É parte da tarefa educativa de qualquer pai apresentar o "NÃO" para o seu filho. Piaget ao observar este fenômeno, o chama de "a moral do dever", ou heteronomia, onde a criança segue as regras fixadas pelas autoridades que a rodeiam (pais, irmãos mais velhos, etc).
Nestes termos, o que facilamente se verifica no ambiente familiar é que os pais quase sempre fracassam na tarefa de ser autoridade para seus filhos. Muitos querem ser "coleguinhas", isso quando não comentem o erro crasso de substituir a PRESENÇA por um presente. O papel educativo que lhes cabia foi transferido para os canais multishow de desenhos animados e pelos brinquedos e equipamentos eletrônicos de entretenimento. Ficam os pais com medo de corrigir seus filhos, por inabilidade, ou porque aprenderam que o melhor meio, "o que não vai causar nenhum trauma", é o diálogo. Parte dessa afirmação é correta, mas dialogar com as crianças é decidir por elas; é dizer não; é construir um canal claro de comunicação em que as direitos e os deveres, as causas e as consequencias estejam bem definidas. Posso afirmar, com certeza que a falta dessa correção é muito mais traumática do que qualquer evento marcante na vida de uma criança. Ela crescerá sem que alguém lhe apresente o mundo e lhe ajude a imprimir sentido nas coisas. Os pais devem ajudar seus filhos compreender o mundo desde a mais tenra idade.

No ambiente escolar, pode-se dizer que a indisciplina dos educandos é, em parte, resultado do fracasso familiar quanto a essa tarefa de ser auoridade, mas também se deve ao fato de que o modelo educacional que vigora no Brasil atualmente tem mais de dois séculos, sem sofrer praticamente nenhuma alteração. Digo, em termos de modelo educacional e não de práticas educacionais, que, obviamente incorporam alguns componentes tecnológicos de última geração. Entretanto, no que se refere à indisciplina dentro do ambiente escolar, todo o aparato produzido para reter a atenção dos educandos tem um efeito contrario e serve como uma hiperestimulação, não é eficaz para diminuir a violência em forma de bulling, aumentar a capacidade de concentração e melhorar a apreensão dos conteúdos apresentados.

Aos educadores, gotaria de mencionar alguns conselhos para lidar com crianças e adolescentes no que se refere a (in)disciplina:
1) Eles sempre vão te testar ao limite. Principalmente, aqueles que não conhecem a ecologia educacional estabelecida na instituição (novos alunos e os mais anômicos).
2) Não aja de improviso. A reatividade não é o melhor caminho para tomar decisões. Elas não precisam ser respondidas na mesma hora.
3) É preciso que exista um ambiente de confiança, respeito e honestidade. Isso pode demorar a se estabelecer, mas é preciso que seja marcado de forma radical. Diga sempre a verdade e o motivo pelo qual a atitude esta sendo tomada. Isso imprime sentido à correção.
4) Apurar o olhar sobre os sentimentos e comportamentos da criança. Muitas reações são, na maioria das vezes, respostas aos conflitos que eles vivenciam em casa, na comunidade ou na própria escola.
5) O educador deve ser um mediador. Ajudando-os a compreender o mundo, descrever problemas, falar sonbre seus sentimentos e buscar soluções que incidam sobre a causa e respeite princípios.
6) É importante que as regras locais (direitos e deveres) sejam acordados entre os educadores e os educandos no início de um ciclo de trabalhos. A participação dos educandos na construção desses "combinados" é de extrema importância.

Este texto é parte da experiência que tenho acumulado trabalhando com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social. São observações que tenho feito no dia-a-dia e têm surtido bons resultados em todos os projetos em que a OMCV está presente. Espero que sirva de orientação e estímulo para pais e educadores mehorarem a relação com seus filhos e educandos.