Avanços éticos da civilização

Por Aender Borba
Há dois dias, ouvindo uma rádio de notícias, como faço todas as manhãs ao me deslocar para o trabalho, fiquei extremamente provocado com a notícia de um assalto realizado em São Bernardo do Campo (SP), que culminou com a morte da vítima. (Leia a notícia aqui). Quem me conhece, sabe que não gosto de sensacionalismo e nem acho que coisas desse tipo não aconteçam todos os dias, uma vez que lido diariamente com problemas humanos profundos defendendo direitos de crianças e adolescentes em situação de risco social e isso é suficiente para que eu não tenha uma visão românantica da vida.
O fato é que nesse episódio identifiquei algo que um professor da época da faculdade dizia: "o projeto progressista pós-moderno evoluiu tecnicamente, mas fracassou na ética".(Maurício Damasceno). De fato, lembro-me de que ele dizia que, moralmente, os problemas da humanidade são os mesmos, desde que o mundo é mundo. Só pra mencionar alguns, descrevo brevemente um ritual dos povos Amorreus que cultuavam um ídolo chamado Moloc, que era uma estátua com uma cavidade que fumegava em fogo ardente  e crianças eram lançadas vivas como sacrifício àquele deus, isso cerca de 1900 anos antes de Cristo. Os astecas também tinham rituais de sacrifício humano de prisioneiros de guerra para apaziguar o deus Huizilopchtli. Estes e centenas de outros ritos eram cercados de um elemento comum: a identificação de algo transcendente. Mesmo com toda a crueldade presente na ação, algo ali tinha uma ligação com a crença e a espiritualidade daqueles povos. Não cabe aqui, fazer um julgamento moral sobre os rituais, mas o fato é que um elemento da crença desses povos estava presente e, de certa forma, justificava perante o senso da comunidade aquela prática. 
Na modernidade, dois eventos precisam ser destacados: 1o) a Revolução Francesa, com seus ideias de liberdade, fraternidade e igualdade. Ao que parece foram muito mal compreendidos, pois em nome desses mesmos ideias, as pessoas matavam seus semelhantes. 2o) O genocídio alemão (holocausto) impetrado por Hitler, com a justificativa de que uma etinia deveria se impor às outras. Isso sem falar de Stalin e outros.... 
Engraçado que desses capítulos negros da história surgiram o que hoje conhecemos como a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que atulmente tem frequentado a mídia brasileira numa disputa por status político. Que direitos eles querem defender? Dos humanos ou de um grupo de humanos? 
Minha modesta opinião é que HUMANOS é uma categoria universal da raça a que pertencemos, neste sentido estou com os antropólogos que afirmam não existirem "raças" entre os humanos, mas uma só "raça": a humana. 
Diante a tragédia da dentista paulista só consigo imaginar que o conceito de HUMANO perdeu-se completamente. O pior e mais grave nisso tudo é que perdeu-se mais que a humanidade, perdeu-se também o sentido pelo qual as coisas são realizadas. Há um esvaziamento completo de sentido das coisas na sociedade doente em que vivemos. Aqueles bandidos atearam fogo em sua vítima porque ela só tinha R$30,00 em sua conta bancária. Estranho, porque segundo as testemunhas e a própria polícia, o carro em que estavam, um Aldi A3, deve custar em torno de R$80.000,00 o mais barato. A questão não era só o dinheiro do assalto, pois seria mais rentável dar cabo do carro em um desmanche, ou coisa do tipo. O que estava presente ali era um sinal de algo que tem marcado nosso tempo: a vida humana não vale nada. Não sabemos mais ficar diante dos outros. Não sabemos mais olhar na face dos outros. Tudo fica coisificado. Quando isso acontece, não existe alteridade e tanto faz matar ou atear fogo. Na sociedade do indivíduo (aquele que não se dividide) não há espaço para as relações, tudo é contato com uma coisa, com um objeto. Quando não se sabe o que fazer com ele, joga-se fora, ou ateia fogo, como fizeram aqueles rapazes. 

Lamento a morte da dentista, mas lamento também a morte das relações!