Ciranda do Coração: uma experiência profissional

Por Aender Borba

Há seis anos trabalhando com atendimento psicológico a crianças e adolescentes (e suas famílias) em situação de vulnerabilidade, sinto profunda gratidão por toda experiência que acumulei nesse tempo; como profissional, como cidadão e principalmente como pessoa. Desde a graduação, atuar na área social tornou-se um desejo ardente. Porém, nunca me imaginei trabalhando em contextos que envolvessem tamanha complexidade, cujos desafios diários variariam entre ser abordado frequentemente por adolescente distribuindo drogas (nas bocas de fumo e nas ruas), até o risco eminente (real) de comprometimento da própria segurança pessoal (disputas de território por traficantes, tiroteios, balas perdidas, etc).

No início, movido pelo idealismo de pensar ser capaz de transformar o mundo com tudo que aprendi na faculdade, estar ali era mais que exercer a profissão, era um projeto de realização existencial. Uma força motriz me fazia levantar cedo todos os dias (isso não mudou), gastar horas em pesquisas, conversas e reuniões com outros profissionais envolvidos em trabalhos semelhantes, observações de outros modelos e leituras infindáveis. Foi nessa jornada que percebi a falta de material (prático) publicado para contextos como estes. As crianças que eu lia nos livros eram muito diferentes daquelas que estavam diante de mim. Com o passar do tempo fui percebendo que seria necessário desenvolver uma metodologia própria para lidar com grupos (algo extremamente difícil) de crianças e adolescentes submersos em contextos de extrema vulnerabilidade social, privação cultural, violência e negligência doméstica, casos e mais casos de abuso sexual e psicológico, abandono familiar, erotização precoce, todos os tipos de pobreza (financeira, cognitiva, afetiva, moral, cultural...), famílias ameaçadas de morte, isso, apenas pra citar alguns. 


Como psicólogo social submeti à OMCV um programa de educação socioemocional, que recebeu o nome de "Ciranda do Coração". O Ciranda foi elaborado com a intenção de ajudar as pessoas a identificarem sentimentos e emoções permitindo-lhes uma reflexão (consciência) sobre como lidar com as realidades que são enfrentadas diariamente. O objetivo não é apenas que eles sejam capazes de identificar os afetos; também é produzir uma consciência que lhes permita dar resposta adequadas àquilo que lhes é solicitado a responder dentro do contexto em que estão inseridos. O método consiste em utilizar instrumentos lúdicos (jogos, brincadeiras, dinâmicas de grupo), informativos (filmes, vídeos, documentários, músicas), cognitivos (desafios lógicos, matemática, testes de habilidades específicas, testes psicológicos), educacionais (leitura, escrita, alfabetização, redação) e outros. O viés psicológico do método não foca a utilidade ou o conteúdo do instrumento em si, mas na RELAÇÃO do educando com cada um deles, sob a orientação oferecida pela mediação (INTENCIONALIDADE) do educador. Em síntese, o programa propõe uma interação do educando com algum tipo de tarefa que desperte um olhar para questões que estão para além do instrumento utilizado. A dificuldade para enfrentar um desafio lógico, por exemplo, pode apontar para dificuldades relacionadas desde uma timidez natural, até uma introversão (fechamento existencial) causado por abuso sexual. Neste sentido, acreditamos que o brincar tem a força de evocar conteúdos subjetivos (muitas vezes traumáticos) e a medição, orientada por um olhar atendo e cuidadoso, é capaz de ajudar os educandos a conferir-lhes sentido. Para nós, ajudar os educandos a compreender suas dificuldades por meio da relação com esses instrumentos vai produzir produzir mudanças na percepção de si mesmos (autoconhecimento), senso de responsabilidade, respeito, cuidado (de si e dos outros), desperta o potencial criativo, produz resiliência e muitas outras competências (virtudes) que são necessárias ao convívio social.

Educar os afetos é uma tarefa complexa. Mais complexo ainda é tornar cognoscível (para os educandos que recebem a intervenção e dos educadores e gestores que esperam uma mensuração dos resultados) um trabalho que depende te fatores intra, inter e subjetivos. Durante esses anos, muitas boas experiências foram colhidas deste desafio diário de enfrentar questões tão sérias e tão pouco valorizadas por uma sociedade tão profundamente mergulhada num tipo de sentimentalismo (narcisista e egoísta). O ceticismo nos ensinou a duvidar de tudo e romantismo nos levou a confiar em ilusões. Minha proposta é fazer com que crianças e adolescentes se deparem com a realidade e aprendam a enfrentá-la. Isso sim é dar-lhes oportunidades reais de enfrentamento, resiliência e autoconhecimento. Podemos até acreditar que uma criança que não sabe ler e escrever aos 16 anos de idade é fruto de negligência da família, ou falta de oportunidades, ou deficiência cognitiva. Enquanto olharmos para os vulneráveis sem nenhum interesse verdadeiro em contribuir com suas demandas mais profundas (não pense que os pobres só precisam de comida, brinquedos e de sua piedade) teremos dificuldades em penetrar nesse universo tão rico da  dignidade humana, que só pode ser percebido quando somos humanos como eles o são. A coisa que o vulnerável menos precisa é de ter mais um super-homem (desumano) em seu território. Eles precisam de gente, gente que sente, que chora, que sorri, que tem problemas, que vence alguns desafios, que perde outros. Educar os afetos é um ato de humanização. Não de conteudismo morto e vazio. 

A formação teológica do pastor

Este texto tem o objetivo de tornar pública a minha gratidão a Deus por tudo que ele me proporcionou vivenciar entre os anos de 2013 e 2017, quando, num período de muitas mudanças em minha vida, eu fui estimulado a retornar à cadeira de um curso de graduação. Lembro-me com muita alegria de uma conversa, que não deixou de ecoar em minha cabeça durante um bom tempo, com meu amigo e pastor, Guilherme de Carvalho: "Aender, você quer estudar mais para servir melhor à igreja?". Lembro-me que aquela pergunta atravessou minha biografia como uma flecha, pois àquela altura já não estava em meus planos fazer outra graduação, uma vez que o mestrado em Psicologia (minha primeira formação) estava às portas. 

Recordo de ter dito ao Guilherme que eu gostaria muito de me capacitar, mas que gostaria de buscar uma instituição de confessionalidade 100% reformada, para evitar de ter que filtrar pontos divergentes existentes nas diversas vertentes teológicas, a partir das aulas expositivas ou literaturas que não primam por essa tradição. Mesmo sabendo das diversas dificuldades que enfrentaria, decidi-me pelo "Seminário Martin Bucer", em São José dos Campos. Divisor de águas em minha vida. Gratidão eterna a Deus pela família Ferreira (Franklin, Marilene e Beatriz). 

Três anos e meio depois, aqui estou eu, celebrando esta grande vitória, que só foi possível com a ajuda da minha amada família, minha esposa Rozilene e minha filha Natalí, e minha comunidade de fé, a Igreja Esperança, em Belo Horizonte. 


Retomo aqui um texto que escrevi inspirado em várias aulas com os melhores mestres deste país e de fora dele. 
"Ninguém perde a fé porque estuda teologia. Alguém que abandona a fé ao entrar no seminário, já havia se perdido antes. A fé só é encontrada aos pés da cruz. Não se recupera a fé lendo livros. A apostasia não esta ligada à capacidade de conhecer a Deus, porque a teologia não resolve o problema da dúvida. A doença da igreja, em termos teológicos, é que não temos teólogos convertidos pela graça de Deus. Um regenerado é o único que pode ler as Escrituras, pois é iluminado pelo Espírito Santo. O seu labor está em Deus.
As mãos do teólogo devem estar sempre vazias para receber a revelação. Com as mãos cheias de instrumentalidade não é possível receber a dádiva, pois a salvação já foi dada. A teologia é um conhecimento dos salvos, que não controlam a Deus pelo conhecimento, mas dizem constantemente que O amam. Isso não é fácil!!
Teologia não é um exame laboratorial de Deus, não temos controle sobre ele, sua ação em nós não nos permite pensar mais nada sobre nós mesmos. Esse tipo de movimento exige humilhação. A teologia nasce do impacto do teólogo com o que o atropelou: Deus".
SOLI DEO GLORIA

Cristo entre Deus e os homens

     O texto que vamos adotar como fonte para essa reflexão está no evangelho de João 8:1-11. Conta a história de uma mulher que foi surpreendida em surpreendida em adultério. Antes de entrar na narrativa propriamente dita, é necessário entender algumas questões de análise textual muito interessantes sobre este trecho das Escrituras. 


     Se você é um leitor atendo, perceberá que algumas bíblias contêm uma nota de rodapé, dizendo: “não consta na maioria dos manuscritos antigos”. Antes de qualquer conclusão precipitada, é preciso que se saiba que a dúvida sobre a preservação deste texto não é quanto à sua autenticidade, mas quanto ao local aonde ele foi inserido, o que nos faz pressupor que trata-se de um excerto. Muitos estudiosos concordam que a narrativa poderia estar após Lucas 21.38, outros, de forma variada, o colocam após João 7.44, João 7.36 ou João 21.25. A justificativa para definir o local aonde ele deverias estar seria a dificuldade em se atestar que o material é autenticamente, joanino. Há numerosas expressões e construções que não são encontradas em nenhum outro lugar em João, mas que são comuns nos evangelhos sinóticos. Em termos de estilo textual, o trecho em questão tem mais afinidade com Lucas.

     Por outro lado, não há motivos para duvidar que o evento aqui descrito ocorreu, mesmo que ele, no início, em sua forma escrita, não pertencesse aos livros canônicos. Narrativas semelhantes são encontradas em outras fontes, além de ter um número significativo de paralelos com as narrativas dos evangelhos sinóticos. O motivo dessa inserção aqui pode ter sido ilustrar 7.24 e 8.15 ou, talvez, mostrar a pecaminosidade dos judeus em contraste com a ausência de pecado de Jesus (8.21, 24, 46).

     Os versos de 1 a 3 apresentam os argumentos mais fortes sobre o deslocamento deste trecho de seu lugar original. Por exemplo, em Lucas 21:37 vê-se a seguinte citação: “Jesus ensinava todos os dias no templo; mas à noite, saindo, ia pousar no monte chamado das Oliveiras". Para alguns estudiosos, o contexto mais adequado para este relato da mulher adúltera seria a semana santa (semana da paixão de Cristo). A essa altura, o ministério de Jesus atingira grande profusão entre os judeus em todo Israel. O pátio do tempo era um lugar muito movimentado. Uma espécie de arena judaica pública de grande trânsito de pessoas, aonde alguns escribas expunham as escrituras para as pessoas que circulavam por ali. Vale também dizer que a expressão “escribas e fariseus” é muito comum nos sinóticos, mas a palavra “escriba” não aparece em outro lugar no Evangelho de João, a não ser neste trecho. 

     Como lemos a partir do verso 4, os judeus vão a Jesus tratando-o com certa ironia, evidenciado na forma como o tratam: “Mestre” (rabi, didaskale). Apesar de conhecerem sua fama, não o consideravam uma autoridade judaica, como eram os escribas ou os membros do Sinédrio. O verso 6 fala sobre a real intenção de testarem Jesus. Dessa feita, trouxeram-lhe uma mulher supostamente apanhada em adultério. Algo muito questionável, pois deve-se destacar que adultério não é um pecado que se comete sozinho. Bom,  “Se fosse hoje em dia, dada a 'qualidade' de alguns homens que temos, não seria difícil pensar que o cara deu no pé e deixou a mulher para sofrer nas mãos dos acusadores.” Se por uma lado existem pontos obscuros no drama, por outro, a situação de injustiça chama nossa atenção e conclama nossa compaixão, mas não era bem esta prova que os judeus estavam propondo a Jesus, eles não estavam exatamente querendo ser zelosos com a Lei.

     A citação da lei que as autoridades fazem (Moisés nos ordena apedrejar tais mulheres) levanta uma questão amplamente controversa: a mulher era casada, solteira ou noiva? Isto porque o texto da Lei a que eles se referiam (Dt 22.23-24) trata de cinco casos a serem julgados em situação de infidelidade com o cônjuge ou noivo. Das prescrições mosaicas, apedrejamento era a punição para uma noiva virgem que fosse sexualmente infiel a seu noivo. O texto diz que a punição que devia ser aplicada aos dois parceiros sexuais. Outro texto possível, seria Lv 20.10, cuja morte é prescrita para todas as esposas infiéis e seus amantes, mas não se estabelece nenhum método específico (como apedrejamento). Se ainda os judeus estivessem se referindo à tradição dos judeus, a Mishná (Sanhedrin 7.4), prevê que os dois casos são rigorosamente diferenciados: a ofensa (a noiva infiel), na primeira instância, é punível por apedrejamento (é vista como a mais séria das duas), e a segunda (o amante) por estrangulamento. Isso significaria que a mulher nessa passagem era noiva, não casada.

     Mesmo que o caso não apresentasse nenhuma dúvida sobre a infidelidade da mulher e seu suposto parceiro, estava Jesus diante de um dilema moral. "E tu, o que dizes?” Se Jesus rejeitasse a Lei de Moisés, sua credibilidade perante os judeus seria instantaneamente minada: ele seria considerado uma pessoa sem lei, talvez fosse acusado nos tribunais de crimes graves. Se ele mantivesse a lei de Moisés, estaria apoiando uma atitude difícil harmonizar com sua bem conhecida compaixão pelos subjugados e desacreditados; além disso, só o Sinédrio detinha o direito de pronunciar a sentença de morte por transgressões contra as leis judaicas (18:31), mas não sem autorização romana, que era quem executava as penas.

     Muito se tem escrito sobre o que Jesus havia escrito no chão naquele dia. Alguns dizem que ele estava imitando a prática de magistrados romanos que, primeiro, escreviam suas sentenças e, depois, as liam. Outros que ele escrevia o nome do fariseus e seus pecados, fazendo alusão ao texto de Jr 17:13. John Derret apud Carson sugere que a primeira vez que Jesus se abaixou, ele escreveu: “Não seja cúmplice do ímpio, sendo-lhe testemunha mal-intencionada” (Êx 23.1b), e na segunda vez: “Não se envolva em falsas acusações nem condene à morte o inocente e o justo, porque não absolverei o culpado” (Ex 23.7). Dentre as muitas especulações, o que se pode inferir com certeza é que escrever no chão era uma ação de adiamento que não agradou os oponentes de Jesus. Mesmo não sabendo o que Jesus escreveu, sabe-se que a frase: “Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar pedra nela” é uma referência direta a Deut 13.9; 17.7 (cfi Lv 24.14), que diz que as testemunhas do crime devem ser as primeiras a atirar pedra, e não podem ter participação no crime em si. Muitos manuscritos dizem especificamente que os acusadores foram “acusados pela própria consciência”.

    A atitude desses judeus em fazer o exame de suas consciências, nos leva a pensar sobre muitos o número de pessoas que se dizem “cristãos”, mas adotam posturas antinomistas (não existem leis absolutas). São insensíveis, estão entorpecidos pela maldade e acha que são o centro do universo. São incapazes de sentir culpa quando cometem pecados. Como diz Rm 2:29 e Gal 5:19-21 “estão cheios de injustiça, malícia, cobiça, maldade, inveja, homicídio… praticam imoralidade, impureza, idolatria e feitiçaria, inimizades, ciúmes inveja, bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a essas”. Incapazes de se perceberem pecadores, tudo que querem é uma oportunidade de se mostrar melhor que os demais e encher as mãos de pedras para serem desferidas contra toda a humanidade. Como no conto brasileiro de Fernando Sabino, O Grande Mentecapto, quando o personagem Geraldo Viramundo quis se valer deste trecho bíblico para defender a viúva Correa Lopes. Ele mesmo tomou uma pedrada na cabeça.
     
     Quando os opositores vão embora, Jesus, dirige-se à mulher (igynat) de forma respeitosa. Da mesma forma como tratou sua mãe (2.4) e a mulher Samaritana (4:21). Ele, de fato, não pergunta se ela é culpada, mas se há outros que a condenaram. Embora o final do verso 11 “Agora vá e abandone sua vida de pecado” pressupõem que ela tivesse a culpa. Ela responde: “Ninguém, senhor.” (grego, kyrie, que significa ‘senhor’ tanto como ‘Senhor’).

     Este belo relato da Escrituras Sagradas nos permite fazer algumas observações, que vão além de perceber Jesus como um ativista social, que dedicou sua vida apenas a defender os menos favorecidos e/ou oprimidos pelo sistema político da época. É sempre bom ter em mente que o trabalho de Jesus é salvar o mundo!

     Primeiro, podemos perceber que o texto nos ensina que todo pecado é transgressão da Lei, uma ofensa grave perante Deus e merece a justa punição. Diante de Deus não há espaço para autojustificação. Muitos cristãos (nominais) adotam a postura cega em relação ao ensino bíblico e dizem: "o pecado do outro é mais grave que o meu" e isso lhe causa uma sensação de conforto com a sua prática, como se esta percepção psicológica do pecado lhe conferisse algum tipo de redenção. Isso é um engano! Só Jesus tem resposta para mim e para você: essa resposta é a sua graça.  

     O que eu chamo de estratégia da figueira, é algo tão antigo quanto a própria humanidade. Em Gn 3:7 lemos que homem e mulher ao se perceberem nus, por causa de seus pecados, tentaram interpor algo entre eles e Deus. Um artifício de autojustificação, que não funcionou, não porque era pequeno ou insuficiente, mas porque nenhum artifício humano pode esconder as nossas vergonhas quando pecamos contra Deus. Se não mergulhamos na graça vamos viver todos os dias achando que uma “folha de árvore” pode esconder as suas vergonhas diante de Deus. Essas autojustificativas se tornam argumentos para nos defender diante de Deus, que na verdade nos transformam em acusadores. Lembra-se qual foi a justificativa do homem ? “foi a mulher que o Senhor me deu”. E a da mulher? “foi a serpente que me enganou”.

     Qual a folha de figueira (argumentos) que você tem usado pra se esconder/autojustificar?
Que já leu todos os livros das estantes reformadas ou que sabe de cor todos os artigos das confissões e catecismos da história da igreja? Ou é que o seu casamento não dá certo porque seu cônjuge não muda? Ou que você trata as pessoas com arrogância e desprezo porque você sabe tudo sobre depravação total? Tem muito crente lançando todas as fichas na mesma religiosidade hipócrita daqueles escribas e fariseus. Sentem que não precisam mudar, pois são justificados pelas seu excelente desempenho espiritual (salvação pelas obras). 

     Segundo, em Mateus 7:1-5 Jesus pergunta sobre qual “critério” temos usado para fazer nossos julgamentos. “Não julgueis para que não sejais julgados, pois com o mesmo critério com que julgardes, sereis julgados...” Nós não fazemos parte de uma comunidade em que as pessoas são diferenciadas pela sua moralidade. “Estávamos todos mortos em nossos delitos e pecados”. É por isso que afirmação de Jesus “quem não tem pecado, que atire a primeira pedra” vem de encontro à nossa condição e exige um exame das nossas consciências, como fizeram aqueles judeus (v.9), começando dos mais velhos. O mesmo exame que Paulo recomenda aos Cristãos de Corinto realizarem quando iam participar da comunhão com Cristo. I Cor 11:31-32 “se julgássemos a nós mesmos, não seríamos condenados. Quando, porém somos julgados pelo Senhor, somos corrigidos, para não sermos condenados com o mundo”.

     Talvez o seu padrão de conduta moral (ética) tenha te ensinado que o amor é a única lei absoluta que existe (situacionista), que Jesus amou aquela mulher independente do seu pecado. Eu quero te dizer que NÃO. Como eu disse no início, esse texto pode até nos impelir a pensar que o foco de Jesus era usar de compaixão para com aquela mulher (vulnerável e desfavorecida), mas isso não é tudo que podemos extrair desse texto. É preciso pensar que maior de todos os bens que Jesus poderia ter realizado àquela mulher (pecadora como eu e você) era salvá-la. (Jo 3:17 e 12:47 “eu não vim para julgar o mundo, mas para salvá-lo). O pecado daquela mulher era suficiente para julgá-la e condená-la, mas a graça a atingiu de forma irresistível.

     Muitos crentes ficam confortáveis com a ideia de que, como são pecadores mesmo, o pecado é uma mera consequência de sua condição. Oro para que o Espírito de Deus te livre deste engano. Embora nossa condição seja de pecaminosidade, a ação vigorosa do Espírito Santo nos ajuda a responder com fé à verdade de que nascemos para uma nova vida em Cristo.

    Terceiro, no confronto com a graça salvadora, aquela mulher respondeu com arrependimento genuíno à voz de Deus que disse: “vá e não peques mais”. Ela foi salva pela graça! Ela não foi condenada, porque “agora, já não há condenação alguma para os que estão em Cristo. (Rom 8:1). Lembre-se que a prática obstinada do pecado é sinal de condenação. O salvo não vive na prática do pecado, ainda que seja pecador, antes, ele responde a Deus, com fé, pelo testemunho interno do Espírito Santo, que lhe diz que não é mais criatura, mas filho.

     Finalmente, você pode estar pensando que cristãos não podem emitir juízo sobre nada. Também não é isso! Nosso critério para emitir um juízo não vem da nossa competência moral, mas da graça que nos alcançou e nos torna sábios para saber fazer a distinção entre certo e errado, entre o bem e o mal. Lembre-se do ensino de Paulo ao Coríntios: "Não sabeis que os santos ão de julgar o mundo? (...) I Cor 6:1-11. 
     
     Oremos para que Deus nos faça abundar em sua maravilhosa graça e nos ajude a não atirar pedras com base em nossa performance moral, mas que possamos humildemente ter os ouvidos abertos para a voz do doce Espírito de Deus, que nos chama a sermos santos e irrepreensíveis num mundo caído e cheio de maldade.

     


Trindade e Humanidade

Preleção realizada por ocasião da 8a Conferência Cristianismo Autêntico na Igreja Esperança, em Belo Horizonte, em julho de 2016.


A Trindade é um tema central para a fé cristã. Compreendê-la é de fundamental importância para uma abordagem teológica sadia e consequentemente uma vida de encontros humanos mais verdadeiros. Compreender quem Deus é a única possibilidade real de conhecer quem nós somos!