A formação teológica do pastor

Este texto tem o objetivo de tornar pública a minha gratidão a Deus por tudo que ele me proporcionou vivenciar entre os anos de 2013 e 2017, quando, num período de muitas mudanças em minha vida, eu fui estimulado a retornar à cadeira de um curso de graduação. Lembro-me com muita alegria de uma conversa, que não deixou de ecoar em minha cabeça durante um bom tempo, com meu amigo e pastor, Guilherme de Carvalho: "Aender, você quer estudar mais para servir melhor à igreja?". Lembro-me que aquela pergunta atravessou minha biografia como uma flecha, pois àquela altura já não estava em meus planos fazer outra graduação, uma vez que o mestrado em Psicologia (minha primeira formação) estava às portas. 

Recordo de ter dito ao Guilherme que eu gostaria muito de me capacitar, mas que gostaria de buscar uma instituição de confessionalidade 100% reformada, para evitar de ter que filtrar pontos divergentes existentes nas diversas vertentes teológicas, a partir das aulas expositivas ou literaturas que não primam por essa tradição. Mesmo sabendo das diversas dificuldades que enfrentaria, decidi-me pelo "Seminário Martin Bucer", em São José dos Campos. Divisor de águas em minha vida. Gratidão eterna a Deus pela família Ferreira (Franklin, Marilene e Beatriz). 

Três anos e meio depois, aqui estou eu, celebrando esta grande vitória, que só foi possível com a ajuda da minha amada família, minha esposa Rozilene e minha filha Natalí, e minha comunidade de fé, a Igreja Esperança, em Belo Horizonte. 


Retomo aqui um texto que escrevi inspirado em várias aulas com os melhores mestres deste país e de fora dele. 
"Ninguém perde a fé porque estuda teologia. Alguém que abandona a fé ao entrar no seminário, já havia se perdido antes. A fé só é encontrada aos pés da cruz. Não se recupera a fé lendo livros. A apostasia não esta ligada à capacidade de conhecer a Deus, porque a teologia não resolve o problema da dúvida. A doença da igreja, em termos teológicos, é que não temos teólogos convertidos pela graça de Deus. Um regenerado é o único que pode ler as Escrituras, pois é iluminado pelo Espírito Santo. O seu labor está em Deus.
As mãos do teólogo devem estar sempre vazias para receber a revelação. Com as mãos cheias de instrumentalidade não é possível receber a dádiva, pois a salvação já foi dada. A teologia é um conhecimento dos salvos, que não controlam a Deus pelo conhecimento, mas dizem constantemente que O amam. Isso não é fácil!!
Teologia não é um exame laboratorial de Deus, não temos controle sobre ele, sua ação em nós não nos permite pensar mais nada sobre nós mesmos. Esse tipo de movimento exige humilhação. A teologia nasce do impacto do teólogo com o que o atropelou: Deus".
SOLI DEO GLORIA

Cristo entre Deus e os homens

     O texto que vamos adotar como fonte para essa reflexão está no evangelho de João 8:1-11. Conta a história de uma mulher que foi surpreendida em surpreendida em adultério. Antes de entrar na narrativa propriamente dita, é necessário entender algumas questões de análise textual muito interessantes sobre este trecho das Escrituras. 


     Se você é um leitor atendo, perceberá que algumas bíblias contêm uma nota de rodapé, dizendo: “não consta na maioria dos manuscritos antigos”. Antes de qualquer conclusão precipitada, é preciso que se saiba que a dúvida sobre a preservação deste texto não é quanto à sua autenticidade, mas quanto ao local aonde ele foi inserido, o que nos faz pressupor que trata-se de um excerto. Muitos estudiosos concordam que a narrativa poderia estar após Lucas 21.38, outros, de forma variada, o colocam após João 7.44, João 7.36 ou João 21.25. A justificativa para definir o local aonde ele deverias estar seria a dificuldade em se atestar que o material é autenticamente, joanino. Há numerosas expressões e construções que não são encontradas em nenhum outro lugar em João, mas que são comuns nos evangelhos sinóticos. Em termos de estilo textual, o trecho em questão tem mais afinidade com Lucas.

     Por outro lado, não há motivos para duvidar que o evento aqui descrito ocorreu, mesmo que ele, no início, em sua forma escrita, não pertencesse aos livros canônicos. Narrativas semelhantes são encontradas em outras fontes, além de ter um número significativo de paralelos com as narrativas dos evangelhos sinóticos. O motivo dessa inserção aqui pode ter sido ilustrar 7.24 e 8.15 ou, talvez, mostrar a pecaminosidade dos judeus em contraste com a ausência de pecado de Jesus (8.21, 24, 46).

     Os versos de 1 a 3 apresentam os argumentos mais fortes sobre o deslocamento deste trecho de seu lugar original. Por exemplo, em Lucas 21:37 vê-se a seguinte citação: “Jesus ensinava todos os dias no templo; mas à noite, saindo, ia pousar no monte chamado das Oliveiras". Para alguns estudiosos, o contexto mais adequado para este relato da mulher adúltera seria a semana santa (semana da paixão de Cristo). A essa altura, o ministério de Jesus atingira grande profusão entre os judeus em todo Israel. O pátio do tempo era um lugar muito movimentado. Uma espécie de arena judaica pública de grande trânsito de pessoas, aonde alguns escribas expunham as escrituras para as pessoas que circulavam por ali. Vale também dizer que a expressão “escribas e fariseus” é muito comum nos sinóticos, mas a palavra “escriba” não aparece em outro lugar no Evangelho de João, a não ser neste trecho. 

     Como lemos a partir do verso 4, os judeus vão a Jesus tratando-o com certa ironia, evidenciado na forma como o tratam: “Mestre” (rabi, didaskale). Apesar de conhecerem sua fama, não o consideravam uma autoridade judaica, como eram os escribas ou os membros do Sinédrio. O verso 6 fala sobre a real intenção de testarem Jesus. Dessa feita, trouxeram-lhe uma mulher supostamente apanhada em adultério. Algo muito questionável, pois deve-se destacar que adultério não é um pecado que se comete sozinho. Bom,  “Se fosse hoje em dia, dada a 'qualidade' de alguns homens que temos, não seria difícil pensar que o cara deu no pé e deixou a mulher para sofrer nas mãos dos acusadores.” Se por uma lado existem pontos obscuros no drama, por outro, a situação de injustiça chama nossa atenção e conclama nossa compaixão, mas não era bem esta prova que os judeus estavam propondo a Jesus, eles não estavam exatamente querendo ser zelosos com a Lei.

     A citação da lei que as autoridades fazem (Moisés nos ordena apedrejar tais mulheres) levanta uma questão amplamente controversa: a mulher era casada, solteira ou noiva? Isto porque o texto da Lei a que eles se referiam (Dt 22.23-24) trata de cinco casos a serem julgados em situação de infidelidade com o cônjuge ou noivo. Das prescrições mosaicas, apedrejamento era a punição para uma noiva virgem que fosse sexualmente infiel a seu noivo. O texto diz que a punição que devia ser aplicada aos dois parceiros sexuais. Outro texto possível, seria Lv 20.10, cuja morte é prescrita para todas as esposas infiéis e seus amantes, mas não se estabelece nenhum método específico (como apedrejamento). Se ainda os judeus estivessem se referindo à tradição dos judeus, a Mishná (Sanhedrin 7.4), prevê que os dois casos são rigorosamente diferenciados: a ofensa (a noiva infiel), na primeira instância, é punível por apedrejamento (é vista como a mais séria das duas), e a segunda (o amante) por estrangulamento. Isso significaria que a mulher nessa passagem era noiva, não casada.

     Mesmo que o caso não apresentasse nenhuma dúvida sobre a infidelidade da mulher e seu suposto parceiro, estava Jesus diante de um dilema moral. "E tu, o que dizes?” Se Jesus rejeitasse a Lei de Moisés, sua credibilidade perante os judeus seria instantaneamente minada: ele seria considerado uma pessoa sem lei, talvez fosse acusado nos tribunais de crimes graves. Se ele mantivesse a lei de Moisés, estaria apoiando uma atitude difícil harmonizar com sua bem conhecida compaixão pelos subjugados e desacreditados; além disso, só o Sinédrio detinha o direito de pronunciar a sentença de morte por transgressões contra as leis judaicas (18:31), mas não sem autorização romana, que era quem executava as penas.

     Muito se tem escrito sobre o que Jesus havia escrito no chão naquele dia. Alguns dizem que ele estava imitando a prática de magistrados romanos que, primeiro, escreviam suas sentenças e, depois, as liam. Outros que ele escrevia o nome do fariseus e seus pecados, fazendo alusão ao texto de Jr 17:13. John Derret apud Carson sugere que a primeira vez que Jesus se abaixou, ele escreveu: “Não seja cúmplice do ímpio, sendo-lhe testemunha mal-intencionada” (Êx 23.1b), e na segunda vez: “Não se envolva em falsas acusações nem condene à morte o inocente e o justo, porque não absolverei o culpado” (Ex 23.7). Dentre as muitas especulações, o que se pode inferir com certeza é que escrever no chão era uma ação de adiamento que não agradou os oponentes de Jesus. Mesmo não sabendo o que Jesus escreveu, sabe-se que a frase: “Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar pedra nela” é uma referência direta a Deut 13.9; 17.7 (cfi Lv 24.14), que diz que as testemunhas do crime devem ser as primeiras a atirar pedra, e não podem ter participação no crime em si. Muitos manuscritos dizem especificamente que os acusadores foram “acusados pela própria consciência”.

    A atitude desses judeus em fazer o exame de suas consciências, nos leva a pensar sobre muitos o número de pessoas que se dizem “cristãos”, mas adotam posturas antinomistas (não existem leis absolutas). São insensíveis, estão entorpecidos pela maldade e acha que são o centro do universo. São incapazes de sentir culpa quando cometem pecados. Como diz Rm 2:29 e Gal 5:19-21 “estão cheios de injustiça, malícia, cobiça, maldade, inveja, homicídio… praticam imoralidade, impureza, idolatria e feitiçaria, inimizades, ciúmes inveja, bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a essas”. Incapazes de se perceberem pecadores, tudo que querem é uma oportunidade de se mostrar melhor que os demais e encher as mãos de pedras para serem desferidas contra toda a humanidade. Como no conto brasileiro de Fernando Sabino, O Grande Mentecapto, quando o personagem Geraldo Viramundo quis se valer deste trecho bíblico para defender a viúva Correa Lopes. Ele mesmo tomou uma pedrada na cabeça.
     
     Quando os opositores vão embora, Jesus, dirige-se à mulher (igynat) de forma respeitosa. Da mesma forma como tratou sua mãe (2.4) e a mulher Samaritana (4:21). Ele, de fato, não pergunta se ela é culpada, mas se há outros que a condenaram. Embora o final do verso 11 “Agora vá e abandone sua vida de pecado” pressupõem que ela tivesse a culpa. Ela responde: “Ninguém, senhor.” (grego, kyrie, que significa ‘senhor’ tanto como ‘Senhor’).

     Este belo relato da Escrituras Sagradas nos permite fazer algumas observações, que vão além de perceber Jesus como um ativista social, que dedicou sua vida apenas a defender os menos favorecidos e/ou oprimidos pelo sistema político da época. É sempre bom ter em mente que o trabalho de Jesus é salvar o mundo!

     Primeiro, podemos perceber que o texto nos ensina que todo pecado é transgressão da Lei, uma ofensa grave perante Deus e merece a justa punição. Diante de Deus não há espaço para autojustificação. Muitos cristãos (nominais) adotam a postura cega em relação ao ensino bíblico e dizem: "o pecado do outro é mais grave que o meu" e isso lhe causa uma sensação de conforto com a sua prática, como se esta percepção psicológica do pecado lhe conferisse algum tipo de redenção. Isso é um engano! Só Jesus tem resposta para mim e para você: essa resposta é a sua graça.  

     O que eu chamo de estratégia da figueira, é algo tão antigo quanto a própria humanidade. Em Gn 3:7 lemos que homem e mulher ao se perceberem nus, por causa de seus pecados, tentaram interpor algo entre eles e Deus. Um artifício de autojustificação, que não funcionou, não porque era pequeno ou insuficiente, mas porque nenhum artifício humano pode esconder as nossas vergonhas quando pecamos contra Deus. Se não mergulhamos na graça vamos viver todos os dias achando que uma “folha de árvore” pode esconder as suas vergonhas diante de Deus. Essas autojustificativas se tornam argumentos para nos defender diante de Deus, que na verdade nos transformam em acusadores. Lembra-se qual foi a justificativa do homem ? “foi a mulher que o Senhor me deu”. E a da mulher? “foi a serpente que me enganou”.

     Qual a folha de figueira (argumentos) que você tem usado pra se esconder/autojustificar?
Que já leu todos os livros das estantes reformadas ou que sabe de cor todos os artigos das confissões e catecismos da história da igreja? Ou é que o seu casamento não dá certo porque seu cônjuge não muda? Ou que você trata as pessoas com arrogância e desprezo porque você sabe tudo sobre depravação total? Tem muito crente lançando todas as fichas na mesma religiosidade hipócrita daqueles escribas e fariseus. Sentem que não precisam mudar, pois são justificados pelas seu excelente desempenho espiritual (salvação pelas obras). 

     Segundo, em Mateus 7:1-5 Jesus pergunta sobre qual “critério” temos usado para fazer nossos julgamentos. “Não julgueis para que não sejais julgados, pois com o mesmo critério com que julgardes, sereis julgados...” Nós não fazemos parte de uma comunidade em que as pessoas são diferenciadas pela sua moralidade. “Estávamos todos mortos em nossos delitos e pecados”. É por isso que afirmação de Jesus “quem não tem pecado, que atire a primeira pedra” vem de encontro à nossa condição e exige um exame das nossas consciências, como fizeram aqueles judeus (v.9), começando dos mais velhos. O mesmo exame que Paulo recomenda aos Cristãos de Corinto realizarem quando iam participar da comunhão com Cristo. I Cor 11:31-32 “se julgássemos a nós mesmos, não seríamos condenados. Quando, porém somos julgados pelo Senhor, somos corrigidos, para não sermos condenados com o mundo”.

     Talvez o seu padrão de conduta moral (ética) tenha te ensinado que o amor é a única lei absoluta que existe (situacionista), que Jesus amou aquela mulher independente do seu pecado. Eu quero te dizer que NÃO. Como eu disse no início, esse texto pode até nos impelir a pensar que o foco de Jesus era usar de compaixão para com aquela mulher (vulnerável e desfavorecida), mas isso não é tudo que podemos extrair desse texto. É preciso pensar que maior de todos os bens que Jesus poderia ter realizado àquela mulher (pecadora como eu e você) era salvá-la. (Jo 3:17 e 12:47 “eu não vim para julgar o mundo, mas para salvá-lo). O pecado daquela mulher era suficiente para julgá-la e condená-la, mas a graça a atingiu de forma irresistível.

     Muitos crentes ficam confortáveis com a ideia de que, como são pecadores mesmo, o pecado é uma mera consequência de sua condição. Oro para que o Espírito de Deus te livre deste engano. Embora nossa condição seja de pecaminosidade, a ação vigorosa do Espírito Santo nos ajuda a responder com fé à verdade de que nascemos para uma nova vida em Cristo.

    Terceiro, no confronto com a graça salvadora, aquela mulher respondeu com arrependimento genuíno à voz de Deus que disse: “vá e não peques mais”. Ela foi salva pela graça! Ela não foi condenada, porque “agora, já não há condenação alguma para os que estão em Cristo. (Rom 8:1). Lembre-se que a prática obstinada do pecado é sinal de condenação. O salvo não vive na prática do pecado, ainda que seja pecador, antes, ele responde a Deus, com fé, pelo testemunho interno do Espírito Santo, que lhe diz que não é mais criatura, mas filho.

     Finalmente, você pode estar pensando que cristãos não podem emitir juízo sobre nada. Também não é isso! Nosso critério para emitir um juízo não vem da nossa competência moral, mas da graça que nos alcançou e nos torna sábios para saber fazer a distinção entre certo e errado, entre o bem e o mal. Lembre-se do ensino de Paulo ao Coríntios: "Não sabeis que os santos ão de julgar o mundo? (...) I Cor 6:1-11. 
     
     Oremos para que Deus nos faça abundar em sua maravilhosa graça e nos ajude a não atirar pedras com base em nossa performance moral, mas que possamos humildemente ter os ouvidos abertos para a voz do doce Espírito de Deus, que nos chama a sermos santos e irrepreensíveis num mundo caído e cheio de maldade.

     


Trindade e Humanidade

Preleção realizada por ocasião da 8a Conferência Cristianismo Autêntico na Igreja Esperança, em Belo Horizonte, em julho de 2016.


A Trindade é um tema central para a fé cristã. Compreendê-la é de fundamental importância para uma abordagem teológica sadia e consequentemente uma vida de encontros humanos mais verdadeiros. Compreender quem Deus é a única possibilidade real de conhecer quem nós somos! 


Ensaio sobre fobias e a resposta cristã.

De forma geral, costumamos dizer que o medo é a resposta emocional a ameaça iminente real ou percebida, enquanto ansiedade é a antecipação de uma ameaça futura. Manuais de psicodiagnóstico mostram que os ataques de pânico se destacam dentro dos transtornos de ansiedade como um tipo particular de resposta ao medo. Muitos dos transtornos de ansiedade se desenvolvem na infância e tendem a persistir se não forem tratados. A maioria ocorre com mais frequência em indivíduos do sexo feminino, numa proporção de aproximadamente 2:1, em relação ao sexo masculino.

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais - DSM-5 diz que transtornos mentais são definidos em relação a normas e valores culturais, sociais e familiares. A cultura proporciona estruturas de interpretação que moldam a experiência e a expressão de sintomas, sinais e comportamentos que são os critérios para o diagnóstico. A cultura é transmitida, revisada e recriada dentro da família e de outros sistemas sociais e instituições. A avaliação diagnóstica, portanto, deve considerar se as experiências, os sintomas e os comportamentos de um indivíduo diferem das normas socioculturais e conduzem a dificuldades de adaptação nas culturas de origem e em contextos sociais ou familiares específicos. Isto significa que os limites entre normalidade e patologia variam em diferentes culturas com relação a tipos específicos de comportamentos. Os limiares de tolerância para sintomas ou comportamentos específicos são diferentes conforme a cultura, o contexto social e a família. Neste sentido três aspectos precisam ser considerados em uma avaliação:

1. Síndrome cultural é um grupo de sintomas concorrentes, relativamente invariáveis, encontrados em um grupo cultural, em uma comunidade ou em um contexto específico.

2. Idioma cultural de sofrimento é uma expressão linguística, ou frase, ou forma de falar sobre sofrimento entre indivíduos de um grupo cultural.

3. Explicação cultural ou causa percebida é um rótulo, atribuição ou aspecto de um modelo explanatório que fornece uma etiologia ou causa concebida culturalmente para sintomas, doenças ou sofrimento.

“Um transtorno mental é uma síndrome caracterizada por perturbação clinicamente significativa na cognição, na regulação emocional ou no comportamento de um indivíduo que reflete uma disfunção nos processos psicológicos, biológicos ou de desenvolvimento subjacentes ao funcionamento mental. Transtornos mentais estão frequentemente associados a sofrimento ou incapacidade significativos que afetam atividades sociais, profissionais ou outras atividades importantes. Uma resposta esperada ou aprovada culturalmente a um estressor ou perda comum, como a morte de um ente querido, não constitui transtorno mental. Desvios sociais de comportamento (p. ex., de natureza política, religiosa ou sexual) e conflitos que são basicamente referentes ao indivíduo e à sociedade não são transtornos mentais a menos que o desvio ou conflito seja o resultado de uma disfunção no indivíduo, conforme descrito”. (DSM-5)

Como é a vida cristã em relação aos problemas psicológicos?

A tradição cristã assume que Deus é pessoa; ele pensa, age e sente. Eu também digo que sou uma pessoa que penso, ajo e sinto. Mas só podemos pensar em pessoalidade como uma unidade. Temos o hábito de descrever o que somos em partes que nos constituem de várias maneiras como: corpo e espírito; ou como minha parte física e espiritual. Há ainda a possibilidade de pensarmos em uma divisão de nós mesmos como intelecto, vontades e emoções. Embora seja possível observar assim, essas são apenas divisões didáticas, pois em termos bíblicos, somos uma unidade (ser integral).

Dessa explicação emergem duas questões fundamentais: 1) o ser; 2) a existência. Estes são os dilemas mais fundamentais de todo homem, independente de sua cultura, etnia ou religião. Ninguém escapa ao fato de existir. Por isso estamos sempre à voltas com a pergunta "Quem eu sou?" Porém esse questionamento só pode ser feito por uma pessoa (um ser relacional) tomando por referência um outro ser relacional absoluto e infinito. Neste aspecto a pergunta certa é: "Quem sou eu em relação a Deus?", pois não existe resposta sem um criador pessoal. Nosso ponto de referência infinito é de natureza pessoal (relacional).

O que eu sou como pessoa? Dentre outros aspectos destacam-se dois: sou racional e moral. Do aspecto da minha personalidade, sou como Deus, mas por outro lado sou como os animais e as máquinas, porque eles também são finitos. Só que sou diferente deles, poque sou pessoal, como Deus é pessoal/relacional.

A rebelião do homem é tentar existir fora do círculo no qual Deus o criou para existir. Quando se tenta ser o que não é, todos os elementos que ele é levantam-se contra ele. Francis Schaeffer diz que “aquilo que somos nos separa de nós mesmos”. Até mesmo o ambiente familiar pode produzir sérios danos nessa forma de ser que Deus arquitetou. Por exemplo, quando os pais colocam uma pressão indevida sobre um filho, ao expressar expectativas altas demais de comportamento ou de sucesso – simplesmente porque a criança é da sua família.

 → Um dos resultados psicológicos da rebelião do homem é o medo. Novamente com a ajuda de Schaeffer, falaremos de três tipos de medo, que englobam todos os outros:

O medo do impessoal. A Psicologia tradicional ensina que a melhor maneira de lidar com o medo é agir “como se” Deus existisse. Para Jung, “Deus não passa de alguma coisa que atravessa minha vontade fora de mim ou surge do inconsciente coletivo dentro de mim. Chame qualquer coisa de Deus e renda-se a ele”. O fato é que quanto mais se conhece a própria humanidade, mais se percebe a falta de identidade. Sem um Deus pessoal, os homens estão apenas diante de um fluir de partículas de energia, disso surge o temor real do impessoal. Para ilustrar isso, podemos pensar que toda criança tem medo de uma situação impessoal, quando ficam sozinhas no escuro, geralmente durante a noite. Se os pais ensinam que Deus está ali, presente com ela, o medo da impessoal é tomado por uma presença que ajuda a superar o medo. Infelizmente, nossos filhos dormem (des)acompanhados por suas televisões repletas de hiperestimulação sensorial (cores, movimento, ação, etc), quando não, por filmes carregados de violência e imoralidade.

O medo do não ser: O homem moderno perdeu a referência de onde ele veio, por isso não tem qualquer referência ao Ser, isso o faz se trancar numa sequência do puro acaso. Sem memória e tradição, ele perde o referencial de como os atos de Deus na história o ajudam a ter esperança no futuro.

O medo da morte: para o escritor e filósofo Arthur Schopenhauer, o tema da morte é definido com um “viver para sofrer”, porque o escritor tinha visão distorcida e diferente sobre a vida e era negativista, inclusive sobre a morte. Já o francês Jean Paul Sartre, “a angustia surge no exato momento em que o homem percebe sua condenação irrevogável à liberdade (...) não pode optar por escolher a não ser (...) essa condenação à liberdade lhe gera angústia por saber que ele não é o senhor de seu destino”. Em contraste a essas visões de mundo, o cristianismo ensina que existe uma continuidade de vida, em uma linha horizontal, direto desta vida até o mundo vindouro. O abismo é passado com o novo nascimento; “já passamos da morte para a vida”, conforme I Jo 3:14. A morte foi vencida pela ressurreição do Filho de Deus, por isso não precisamos mais temer a morte, pois ela não é o fim de todas as coisas. Nenhum esforço psicológico precisa ser empregado para negar ou sublimar este fato o qual todos, sem exceção, terão que enfrentar.

Diante do exposto, afirmamos que o contrário do medo não é a indiferença, mas o amor que Deus derramou em nossos corações por meio de sua graça infinita, ao entregar seu Filho como sacrifício vivo, substitutivo e vicário na cruz, por todos os seus eleitos. Amor que não está firmado em sentimentalismo, mas um amor que foi capaz suportar toda ira de Deus, recebendo o castigo em nosso lugar. Lembremo-nos então das palavras do apostolo amado que corroboram essa ideia:

"No amor não existe receio; antes, o perfeito amor lança fora todo medo. Ora, o medo pressupõe punição, e aquele que teme não está aperfeiçoado no amor". I Jo 4:18